Na tarde de 26 de setembro, o Batalha Centro de Cinema convida o público a descobrir filmes da sua Filmoteca em dez espaços da vizinhança, através de uma nova edição do Vai e Vem.
Entre as 16h00 e as 20h00, diferentes filmes estarão em exibição contínua e gratuita, propondo um percurso pelas imediações da Praça da Batalha e convidando o público a descobrir o cinema em lugares tão diversos como uma loja, um salão de beleza, um hotel, uma igreja ou o Teatro Nacional São João.

No Atelier de Guarda-Roupa e Adereços do Teatro Nacional São João, um espaço que habitualmente não está acessível ao público, será exibido “Sonhos de Uma Revolução” (2023), de Pedro Neves. Filmado na estrada de Inhaminga, em Moçambique, o filme parte das memórias pessoais e familiares do realizador para refletir sobre os ecos da guerra, da independência e do 25 de Abril, questionando o legado das revoluções e o momento em que estas verdadeiramente terminam.
No Café Java, “Porto Eletrónica 1985-2005” (2014), de Francisco Abrunhosa e Daniel Reifferscheid, percorre duas décadas de música eletrónica na cidade, entre clubes, pistas de dança e diferentes gerações. Através de testemunhos, memórias e sons, o documentário recupera a transformação da noite portuense, do post-punk e electro ao acid house, drum & bass e deep house.
Num quarto do Hotel NH Collection Porto Batalha, “A Sonolenta” (2017), de Marta Monteiro, acompanha Maria, uma jovem criada de uma casa de aldeia, presa entre as tarefas domésticas, os cuidados de uma criança e as exigências dos patrões. Para ela, dormir torna-se um desejo impossível e, simultaneamente, um espaço de refúgio e resistência.
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Na Igreja de Nossa Senhora do Terço e Caridade, “Escola de Carpideiras” (2026), de Marcelo Pereira, recupera a figura das carpideiras, mulheres contratadas para chorar e lamentar os mortos. Quatro mulheres aprendem os códigos e técnicas deste ofício, desde as palavras usadas para recordar quem morreu até ao exercício do choro, aqui ensaiado e conduzido como uma composição musical.
Na Kate Skateshop, “O Homem do Lixo” (2022), de Laura Gonçalves, parte das memórias de uma família reunida à mesa para reconstruir a história do tio Botão: da vida em ditadura à emigração para França, onde trabalhou como homem do lixo, aos regressos de verão a Belmonte numa carrinha carregada de objetos que transformava em tesouros. Através da animação, a realizadora constrói uma história de memória familiar e coletiva e uma homenagem às pessoas emigrantes e à ligação à terra de origem.
No Orfeão do Porto, dois filmes aproximam-se da infância e do brincar como espaços de memória, imaginação e encontro. Em “Os Amigos do Gaspar: Uma Reunião na Cidade” (2023), Duarte Coimbra recupera personagens, canções e marionetas originais que marcaram várias gerações, reencontrando-as no Porto contemporâneo com humor e afeto. Já “A Sopa da Pedra da Axelle” (2024), de Letícia Costelha, parte de uma brincadeira infantil para refletir sobre o cuidado e a relação com as outras pessoas.
No Restaurante Royal Palace, três videoclipes exploram diferentes possibilidades da linguagem audiovisual. “Extrema-Direita Fascista (Sereias)” (2025), de Jorge Quintela, cruza imagens da atuação da banda com páginas de livros sobre subversão, numa intervenção de carácter político. “Dança Macabra” (Manuel Linhares) (2022), de Margarida Rêgo e Miguel C. Tavares, constrói uma paisagem marítima misteriosa através de fragmentos, sobreposições e presenças enigmáticas. Já “A Strange Feeling of Existential Angst” (Sunflowers) (2023), de Carolina Bonzinho e Leander Meresaar, mergulha num universo psicadélico e de body horror, onde o corpo e a perceção são transformados por um delírio visual de energia contagiante.
No Salão de Beleza Ana Isabel, “Motocrosse X Prova do Campeonato Nacional em Alfena” (1972), de autoria desconhecida, leva-nos até Alfena nos dias 23 e 24 de setembro de 1972, através de um pequeno filme amador mudo, gravado em Super 8mm. Entre a expectativa dos milhares de espectadores, as curvas apertadas, os saltos dos motociclistas e a cerimónia de entrega dos troféus, a obra preserva um retrato espontâneo de uma competição desportiva e de uma época.
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No Sporting Clube Vasco da Gama, “Casas para o Povo” (2010), de Catarina Alves Costa, revisita a experiência do SAAL - Serviço de Apoio Ambulatório Local, movimento criado após a Revolução de Abril para responder à luta pelo direito à habitação. A partir de imagens e sons produzidos entre 1974 e 1976, fotografias e memórias do seu pai, o arquiteto Alexandre Alves Costa, a realizadora constrói um retrato íntimo de uma experiência coletiva que procurou imaginar uma cidade mais justa.

Já na União Desportiva da Sé (Junta de Freguesia do Centro Histórico), três filmes propõem uma viagem pelo Porto através de diferentes tempos e formas de relação com a natureza. “Variações Sobre Como Cultivar Uma Cidade” (2024), de Mónica Martins Nunes, acompanha gestos de cultivo e resistência que persistem entre hortas e jardins, nos interstícios urbanos.
A estes juntam-se dois filmes de arquivo: “Lago do Palácio de Cristal” (1960), de autoria desconhecida, que recupera imagens do Porto e do Douro nos anos 60, e “Jardim Botânico do Porto” [segmento do jornal Voga] (década de 70, ano desconhecido), de César Guerra Leal, dedicado ao jardim botânico da cidade. Em conjunto, os três filmes revelam uma cidade em transformação, onde a natureza se torna também espaço de encontro, contemplação e pertença.
Durante quatro horas, entre as 16h00 e as 20h00, os dez locais terão filmes em exibição contínua. Não há uma ordem a seguir nem um ponto obrigatório de partida: cada pessoa pode escolher onde começa, que espaços visita e onde termina, construindo livremente a sua própria experiência do Vai e Vem.
Fotos: Renato Cruz Santos/Batalha Centro de Cinema