04/12/2025

O Teatro Municipal do Porto (TMP) entra em 2026 com "expetativa, questões e possibilidades", espalhadas em quatro dezenas de espetáculos. Da programação para o próximo ano, apresentada esta quinta-feira, destaque para as estreias em território nacional das novas criações de Christos Papadopoulos, Lia Rodrigues e Miet Warlop, assim como para as celebrações do 94.º aniversário do Teatro Rivoli, e dos 25 anos das Quintas de Leitura, que acontecem sob o lema "O verbo é irmão da liberdade, é propriamente a liberdade".

 

"Ao longo destes meses, encontraremos obras que medem o pulso do nosso presente enquanto regressam aos ecos que o moldaram", afirma o diretor artístico de Artes Performativas da Ágora.

 

Drew Klein considera que "muitas e muitos dos artistas que se juntam a nós entrelaçam passado e futuro, memória e invenção, ancestralidade e projeção. Chamam a atenção para histórias que, por vezes, nos passam ao lado no ritmo acelerado do quotidiano – histórias de migração, identidades em mutação, conflitos íntimos e estruturais, corpos que navegam sistemas que nem sempre sabem acolhê-los. Alguns trabalhos exploram estas questões de frente, confrontando as fricções que definem o nosso tempo. Outros revisitam figuras e narrativas que julgávamos conhecer: as visões artísticas de nomes como Henrik Ibsen, Eça de Queirós, Percy Bysshe Shelley e Lev Tolstói reaparecem não como relíquias, mas como espelhos, desafiando a certeza com que definimos monstros e heróis, inimigos e os medos que os sustentam".

 

 

Nas palavras do vereador da Cultura e Património, "o Teatro Municipal pode implicar-se mais na cidade, evadir-se em dinâmicas fora de portas". "Se a cidade não invade um teatro municipal, um teatro municipal pode tomar a cidade de assalto. Esse alerta deveria ser levado a sério", refere Jorge Sobrado.

 

Reforço do acolhimento, coprodução ou apoio a companhias e estruturas culturais do Porto

 

O responsável considera que é a "diversificação de interesses, linguagens, disciplinas e públicos [que] deve orientar a ação do Teatro Municipal do Porto — tanto quanto a participação de estruturas artísticas e culturais da cidade e das consanguinidades que tem gerado com outros agentes, assim como a renovação das suas marcas e tradições criativas e de programação, de que, de diferentes formas e feitios, são exemplos as Quintas de Leitura, o DDD, o FITEI, o Porta Jazz ou o festival de circo do Porto".

 

 

Sobre os 40 espetáculos, entre os quais 15 coproduções, oito delas portuenses, o vereador da Cultura e Património sublinha que "respeitam tanto a vocação das casas como o próprio tecido artístico da cidade". Reforçando que "não devemos esperar que essa vocação seja perseguida por outras instituições, se nós próprios não dermos esse exemplo, se não liderarmos nesse propósito", Jorge Sobrado assume o "compromisso de acolhimento, coprodução ou apoio a companhias e estruturas culturais do Porto", que "deverá ser inscrito na missão das nossas casas, sendo reforçado no futuro".

 

Aniversários no Teatro

 

De 23 a 25 de janeiro, o Teatro Rivoli celebra o 94.ª aniversário com três dias de festa para todos e entrada gratuita, de onde sobressai a estreia nacional de "My Fierce Ignorant", de Christos Papadopoulos, uma celebração da euforia de estar vivo: dez bailarinos criam uma paisagem sonora extática, da qual emerge a coreografia, explorando como o movimento se transforma numa canção que faz pulsar os corpos do grupo de intérpretes e, potencialmente, também os do público.

 

Em estreia aparece, também, "Lugares", pelo Colectivo Espaço Invisível, que resulta do encontro entre artistas profissionais que compõem o coletivo, a equipa do TMP e a comunidade sénior local.

 

 

A festa faz-se, ainda, com uma espécie de recital intimista de spoken word - "Concerto-poético: Uma celebração", onde Mia Tomé e Noiserv recorrem às palavras de Ana Luísa Amaral, Filipa Leal, Jorge Sousa Braga e Manuel António Pina para homenagear a cidade do Porto. Kiko is Hot protagoniza, ainda, um DJ Set no TMP Café.

 

Para os 25 anos das Quintas de Leitura, há uma sessão especial, a 5 de março, sob o lema "O verbo é irmão da liberdade, é propriamente a liberdade".

 

Novos horizontes artísticos chegam ao TMP

 

Christos Papadopoulos volta ao palco do TMP, nos dias 29 e 30 de janeiro, desta vez com o Ballet de L’Opéra de Lyon, para a estreia nacional de "Mycelium", no qual o coreógrafo cria uma dança de conexões em proliferação, transformando a perceção das relações dentro de um grupo. Uma nova criação ao som da música eletrónica do compositor italiano Coti K.

 

 

Pela primeira vez no Teatro Municipal do Porto, a ilustradora Catarina Sobral traz, a 17 de janeiro, "Perder", uma criação teatral para a infância em que a personagem Clarice se prepara para acampar com a avó.

 

Também para os mais novos, Company Portmanteau estreia em Portugal "PYYKKI- Lost in Laundryland", uma peça que explora o mundo extravagante do "surrealismo doméstico", misturando circo, dança, marionetas e magia.

 

 

Em maio, nos dias 8 e 9, chega mais uma estreia nacional, desta vez uma coprodução do TMP. Em "FRANK", Cherish Menzo/ GRIP & Theater Utrechticw Dance On Ensemble exploram a figura de Frankenstein como encarnação de crenças e narrativas que aterrorizam e atraem ao mesmo tempo, usando a distorção como leitmotiv coreográfico para gerar material de movimento e reinventar a estrutura da dança.

 

Regressos e a música sempre presente

 

O ano de 2026 traz ao TMP os regressos da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, que traz "Borda", concebida no coração da favela da Maré; do encenador Marco Martins, com "Um Inimigo do Povo", que procura uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos manipulam a imagem das comunidades migrantes; da artista belga Miet Warlop, para mais uma estreia nacional: "Inhale Delirium Exhale"; da pianista Joana Gama, com "E as flores?", que pretende sensibilizar para a importância da natureza e da arte; ou da Companhia Nacional de Bailado, que apresenta "Os Maias", de Fernando Duarte, a primeira adaptação coreográfica da obra de Eça de Queirós.

 

Também a música continua presença assídua na programação do Teatro Municipal do Porto. Em 2026, destaque para os concertos de apresentação dos discos de Raquel Martins e O Gringo Sou Eu e a Estrutura com Capicua, além do ciclo mensal Understage, com o duo experimental catalão Los Sara Fontan.

 

A programação não fica fechada sem o ciclo Make Trouble, que, nesta temporada, tem como fio condutor cenários de conflito com "Non-aligned newsreels – voices from the debris", da artista jugoslava Mila Turajlić, e "AZIRA’I: Um Musical de Memórias", da artivista brasileira Zahy Tentehar.

 

 

Mais duas estreias nacionais chegam em março com "Primavera", de Pedro Vilela & Alexis Moreno / TREMA!, uma reflexão crítica sobre os ciclos contemporâneos de mobilização social, inspirada na Primavera Árabe e no Estallido Social Chileno; e "CANTAR", de Francisco Thiago Cavalcanti & um cavalo disse mamãe, com oito intérpretes a resistirem e sobreviverem num mundo violento e em colapso.

 

O ciclo Palcos Instáveis mostra "I’d like to dance the same way you park your car", de Dimitri, Eliot & Rita, e a estreia nacional de "Conto Preto", de Nala. Em 2026, João Oliveira & Mariana Pontes Barbosa estreiam "Slumber party: heartbreak edition".

 

Parcerias com estruturas da cidade e a 10.ª edição do DDD

 

O TMP mantém-se, durante o próximo ano, como palco de referência para festivais e colaborações com estruturas da cidade. Recebe o Festival Porta-Jazz, o FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibéricae o TRENGO – Festival de Circo do Porto. A 10.ª edição do DDD – Festival Dias da Dança realiza-se em abril, consolidando o Teatro Municipal do Porto como força motriz deste festival dedicado à dança e à experimentação artística.

 

A programação completa - de janeiro a junho de 2026 - pode ser consultada na página do Teatro Municipal do Porto.

 

Texto: Porto. 

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