Miguel Falabella, Marisa Orth, Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho protagonizam a comédia “O Pecado Mora em Cima”, realizada por Rui Pedro Sousa, que chega às salas portuguesas nesta quinta-feira, 15 de outubro. Produzido por Sónia Resende, o filme foi rodado em vários locais emblemáticos do Porto, com o apoio da Filmaporto.
Dois casais, um português e outro brasileiro, separados apenas por paredes finas e unidos por uma sucessão de mal-entendidos, desejos e preconceitos são o ponto de partida para esta comédia de costumes, que junta os atores brasileiros Miguel Falabella e Marisa Orth a Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho.
Com argumento de Edson Athayde e direção de fotografia de Pedro Negrão, o filme parte de “Sentimental”, do realizador espanhol Cesc Gay, adaptando a história à realidade portuguesa e à relação entre Portugal e Brasil.
O projeto nasceu da iniciativa da produtora Sónia Resende, que negociou os direitos da obra original, reuniu o elenco, escolheu a banda sonora e construiu o financiamento necessário à produção. “Tudo começou com uma questão que coloquei a mim mesma enquanto produtora: se esta história já estava a ser adaptada em vários países, por que razão deveria existir uma versão portuguesa e como poderia trazer algo de novo, ainda assim?”, explica.
A resposta passou por encontrar uma identidade própria para a adaptação. “Gostei da premissa, da inteligência dos diálogos e sobretudo da possibilidade de usar a comédia para falar de assuntos que, fora dela, podem tornar-se muito pesados: o desgaste das relações, o desejo, a sexualidade, a rotina, os preconceitos e aquilo que escondemos até das pessoas com quem vivemos”, acrescenta Sónia Resende.
“O Pecado Mora em Cima” marca a estreia de Miguel Falabella e Marisa Orth num trabalho cinematográfico em Portugal. Para Sónia Resende, a escolha dos atores brasileiros permite também aproximar diferentes públicos. “Há várias gerações, inclusive em Portugal, que cresceram a vê-los. Ambos têm ainda algo particularmente interessante para este filme: uma enorme capacidade para fazer comédia sem perder a humanidade das personagens”, afirma.

Inês Aires Pereira e Pedro Carvalho dão vida a um casal português de outra geração, com “outra energia e outra forma de estar”. O encontro dos quatro atores acabou por definir grande parte da personalidade do filme.
A presença brasileira em Portugal é explorada através do humor, sem transformar as diferenças culturais numa disputa entre nacionalidades. “A primeira regra foi nunca fazer humor à custa de uma nacionalidade. Fazemos humor com aquilo que acontece quando estas pessoas se encontram, com aquilo que presumem umas das outras, com as palavras que interpretam de maneira diferente e, sobretudo, com os seus próprios preconceitos”, explica Sónia Resende.
Para a produtora, a comédia permite abordar questões sensíveis de uma forma menos defensiva. “Às vezes conseguimos reconhecer, através de uma gargalhada, algo que rejeitaríamos imediatamente se alguém nos desse uma lição sobre ela.”
A nacionalidade surge, assim, como ponto de partida para temas mais universais. “No fundo, a nacionalidade abre uma porta para uma questão muito mais universal: quanto daquilo que pensamos sobre os outros diz, afinal, mais sobre nós próprios?”, questiona.
Embora grande parte da ação decorra dentro da casa dos protagonistas, construída de raiz nos estúdios do Centro de Produção do Norte da RTP, o Porto está presente ao longo do filme. As filmagens passaram por locais como a Rua das Flores, a Livraria Chaminé da Mota, a Praça de Parada Leitão, junto à Reitoria da Universidade do Porto, e a Rua de Alexandre Herculano.
O objetivo não foi criar um simples postal turístico da cidade. “Quando saímos dessa casa quisemos que se percebesse que aquelas personagens vivem efetivamente no Porto, e não numa cidade portuguesa indefinida”, afirma Sónia Resende. “Não quisemos fazer um postal turístico do Porto. Quisemos que o Porto fosse a cidade onde esta história acontece”, acrescenta.
A ligação à cidade assume também uma dimensão de produção. “Somos uma produtora do Norte e quisemos fazer aqui uma longa-metragem com esta dimensão, recorrendo também a estruturas e profissionais maioritariamente locais.” Por isso, para Sónia Resende, o Porto não é propriamente uma personagem do filme. “É a casa destas personagens. E, num filme que fala tanto sobre aquilo que significa uma casa, isso acaba por ganhar um significado especial também no plano metafórico.”
A música assume igualmente um papel importante na identidade desta comédia. A banda sonora inclui temas marcantes da música lusófona, como “Fado Tropical”, de Chico Buarque, “A Minha Casinha”, de Milú, e “Vou Dar de Beber à Dor”, celebrizada por Amália Rodrigues. O filme conta ainda com composição original e interpretação da Orquestra da Academia de Música de Vilar do Paraíso.
“A música foi uma das formas que encontrei para dar ao filme uma identidade portuguesa muito afetiva”, explica a produtora. Uma das referências é o filme O Costa do Castelo, clássico do cinema português que Sónia Resende recorda particularmente pela cena de “A Minha Casinha”, interpretada por Milú.
A escolha ganhou um significado especial quando Sónia Resende descobriu que Miguel Falabella também guardava esse clássico entre as suas referências do cinema português. “Antes mesmo deste filme existir, já havia ali uma memória cultural que nos ligava — sendo eu portuguesa e ele brasileiro”, conta.
A realização está a cargo de Rui Pedro Sousa, com quem Sónia Resende já tinha trabalhado em Revolução (sem) Sangue, um dos filmes portugueses mais vistos nas salas em 2024. Neste novo projeto, a sua segunda longa-metragem, o realizador aposta num registo de comédia diferente dos seus trabalhos anteriores, conciliando o ritmo teatral da história com uma linguagem cinematográfica contemporânea.
“O Pecado Mora em Cima” estreia esta quinta-feira, 15 de outubro, nos cinemas portugueses com distribuição da Cinemundo. O filme será também distribuído internacionalmente, com particular enfoque no Brasil e em países com comunidades lusófonas significativas.