Se, para Eugénio, “No prato da balança um verso basta para pesar no outro a minha vida”, é um verso de Inês Lourenço – “A todas estas riquezas fugidias chamei alma” – que equilibrará toda a poesia de que é feita a edição deste ano da Feira do Livro do Porto. É o momento das palavras e dos livros, mas também da comunidade, da inquietação, da reflexão e do encontro. De 21 de agosto a 6 de setembro, os Jardins do Palácio de Cristal serão lugar para “conversas sobre livros de poesia / que nesse tempo ainda / acreditávamos ser a maior /razão” *.
“A Feira do Livro do Porto é um porto de encontro, um porto que é um local de troca, uma troca humana, um encontro de pessoas”, considera o presidente da Câmara. Para Pedro Duarte, a essência da iniciativa está na capacidade de “trazer ao de cima uma comunidade” e, acrescenta, “é isso que faz uma cidade”.
Falando do evento como “uma instituição da cidade”, o autarca defende que “o Porto tem de assumir-se como uma cidade que aposta na leitura, no livro”. “A literatura é uma marca da cidade histórica e queremos que seja futura”, afirmou.
O autarca deixou, ainda, uma mensagem de reconhecimento à homenageada, sublinhando a “desconcertante afetividade” de Inês Lourenço, que “é o melhor sinónimo da alma do Porto, tão genuína, de que todos nos orgulhamos”. “Obrigado por nos continuar a inspirar”, partilhou Pedro Duarte.
Já nas palavras do vereador da Cultura e Património, a combinação de livros e jardins “é a primeira receita do sucesso da Feira do Livro do Porto, o certame literário mais acarinhado, popular e democrático da cidade, e também o mais insubstituível”. “Não quer ser a maior em nada, mas quer ser inteira em tudo, todos, e por isso plural”, defende Jorge Sobrado.
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O responsável lembrou, ainda, que esta edição é escrita maioritariamente no feminino. Além do nome de Inês Lourenço, Teresa Coutinho na programação, Helena Teixeira da Silva na homenagem, e Rita Roque na curadoria da exposição fazem desta uma Feira do Livro “feminista, na mais ampla aceção da palavra, mais engajada, mais atual.
“Um feminismo pensante sobre o mundo e nosso tempo, que convoca temas para discussão como a guerra, a violência de género, a criação no feminino, a resistência através da escrita, o poder da leitura e da representação, a participação cívica, o crescimento dos populismos, entre outros”, adianta o vereador.
O evento literário deste ano inclui 21 conversas, 20 concertos, sete mesas-redondas, sete sessões especiais, cinco iniciativas em diálogo, seis espetáculos, três exposições, uma intervenção mural, 83 sessões para bebés, crianças, jovens e famílias, além do ciclo de homenagem dedicado a Inês Lourenço e a diversas apresentações de livros. Ao longo de mais de duas semanas de Feira, os visitantes terão à disposição 140 pavilhões, entre editoras, livreiros e alfarrabistas.
Assumindo a programação geral, Teresa Coutinho afirmou que a Feira do Livro se quer “um festival de liberdade de pensamento, de pluralidade e de inclusão, que convide as pessoas a entrar, que possa acolher, mas também agite e inquiete”.
“À semelhança da nossa alma, composta por riquezas fugidias, que, apesar da sua efemeridade, podemos guardar em nós como lições para a vida, como matéria da nossa essência, também o festival tem alma, uma alma não tão diferente da nossa: preciosa e frágil. Feita de vislumbres, de instantes que nos deixem, se possível, mais humanos”, partilhou a atriz.
“Duplamente feliz”, pela homenagem e por ver esta edição da Feira do Livro dedicada à poesia, Inês Lourenço reforça a certeza de que, “para os tempos que correm, acelerados, este género literário é essencial dada a capacidade de potenciar a reflexão em poucas palavras, permitindo “compreender melhor o mundo, desprezar as ideias já feitas, os facciosismos”. “A poesia é a procura de outros olhares, tão útil para as novas gerações”, acredita.
Ao mesmo tempo “muito comovida” com a atribuição de uma tília, Inês Lourenço reconhece na espécie “qualquer coisa muito parecida com a eternidade, com folhas em forma de coração”, símbolo “de amor, de hospitalidade, de justiça, tudo o que há de bom no ser humano”.
“Um poema” a Inês Lourenço sob a forma de homenagem
O primeiro “poema” de homenagem a Inês Lourenço é “escrito” pelo Balleteatro, que, inspirando-se no verso da autora “Invento uma forma de não enlouquecer”, fará uma leitura encenada da obra de Inês em torno da guerra na Palestina.
Para a tarde de sábado, está marcada a habitual atribuição de uma tília nos Jardins do Palácio de Cristal, a que se segue “A todas estas riquezas fugidias chamei alma”, um momento musical, na Concha Acústica, que coloca a música e a poesia da autora em diálogo.
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Mais tarde, Inês Lourenço junta-se a Rosa Maria Martelo, José Manuel Teixeira e Jorge Sobrado para “desvendar os labirintos” da sua obra. Iniciativa conta com a leitura de poemas pelas vozes de Isaque Ferreira e Raquel Marinho.
A homenagem estende-se pelo cinema. Partindo da exibição de um dos filmes da sua vida, “Esplendor na Relva” (1961), de Elia Kazan, a poeta homenageada vai partilhar comentários e reflexões sobre as suas referências cinematográficas.
Ao longo dos dias de festival, a homenagem a Inês Lourenço escrever-se-á com outros “poemas”. Entre conversas, leituras, teatro e dança, referência à exposição “Na Lâmina Implacável do Tempo” que, partindo do arquivo pessoal da autora, reúne um conjunto de livros, manuscritos, correspondência, fotografias, objetos, documentação editorial e obras de arte.
“Ladrões de fogo” na sessão fora de portas das Quintas de Leitura
Inspiradas no verso “O poeta é um ladrão de fogo”, as Quintas de Leitura regressam à Feira do Livro do Porto, num ciclo que reúne leituras de Ana Zanatti, Emília Silvestre, Margarida Carvalho e Paulo Campos dos Reis, e um momento musical pelos Adlib Strings.
Destacam-se, também, as sete sessões especiais de “O poema é um animal invencível, ele é a vitória da linguagem”, que celebram a palavra, reunindo nomes como Rui Oliveira, Luísa Pinto, Mia Tomé, Clara Lacerda, Sofia Bodas de Carvalho ou Pedro Jóia, num diálogo entre poesia, música e performance.
A literatura como mote para conversas sobre os desafios da atualidade
Dino d’Santiago, Tatiana Salem Levy, Rui Lage ou Martim de Sousa Tavares são alguns dos nomes que vão compor os “Ciclos de Conversa”, uma reflexão sobre desafios estruturais e civilizacionais da atualidade como “Literatura e a Violência de Género”, “Ancestralidade e Identidade” ou “Escrita de Resistência”, este último com o poeta e jornalista palestiniano Mohammed El Kurd. Também a franco-marroquina Rim Battal chega pela primeira vez à Feira do Livro do Porto para desafiar as estruturas sociais, religiosas e culturais.
Apresentando, ainda, uma série de conversas orientadas para a “Dramaturgia”, a Feira do Livro recebe, em mais uma “estreia” no evento, uma das figuras mais disruptivas e aclamadas da criação contemporânea internacional: Angélica Liddell.
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A programação conta com a leitura encenada de “O Fantástico Francis Hardy, Curandeiro”, de Brian Friel, interpretado por Patrícia Queirós e Victor Hugo Pontes, sobre memória, fé e verdade, a partir das diferentes versões de um acontecimento misterioso.
Nas habituais apresentações de livros, destaque para “Amor de Perdição – O Sublime Camiliano”, de Tânia Furtado Moreira, que mergulha na obra-prima de Camilo Castelo Branco e espoleta uma conversa entre Pedro Mexia, António Carlos Cortez e Regina Guimarães.
Concha Acústica recebe concertos que são “Encontros”
Porque a música e poesia partilham uma linguagem comum, a Concha Acústica volta a acolher, no final de cada dia da Feira do Livro do Porto, sempre às 19 horas, um concerto acústico e intimista. Este ano, o palco será de Manuela Azevedo com Hélder Gonçalves, Tatanka, Mimi Froes com Miguel Marôco, Frankie Chavez com Peixe e Lena d’Água com Benjamim.
Também a BMAG recebe momentos musicais, apresentando, entre outros, a cantora, compositora e atriz britânica Keeley Forsyth, pela primeira vez no Porto para fazer soar “Hand To Mouth”.
Festival literário reforça a programação para crianças e jovens adolescentes
Com 83 atividades no total, que perfazem 112 horas, a programação da Feira do Livro para crianças de várias idades, adolescentes e famílias traz aos Jardins do Palácio de Cristal espetáculos, cinema, oficinas, hora do conto e jogos tradicionais, mas também desafios para criação de livros, cartoons políticos e espetáculos de desenho em tempo real.
Destaque, nesta edição para a atividade “A biblioteca lá de casa: um projeto de leitura em família”, que vai explorar formas simples e eficazes de criar, organizar e cuidar da biblioteca “lá de casa”.
A Feira continua para lá dos Jardins do Palácio de Cristal
As tardes e noites da Feira do Livro do Porto prolongam-se no Pinguim Café, através da iniciativa “After-Hours da Feira”. Entre 21 de agosto e 6 de setembro, o emblemático espaço portuense recebe uma programação noturna que reúne público e artistas para momentos de convívio e propostas culturais.
Toda a programação será disponibilizada, em breve, na página da Feira do Livro do Porto.
Texto e Fotos: Porto.