02/02/2024

O Cinema Trindade continua a ser, sete anos depois da reabertura, o cinema “ao ar livre” fora dos centros comerciais, o local de “aconchego e familiaridade” com que se afirmou desde cedo. Durante duas semanas, o Trindade comemora mais um aniversário com estreias, sessões únicas e o reencontro com um público que se conhece quase pelo nome. De 5 a 16 de fevereiro, há ainda mais razões para passar pelo Cinema. Fomos ao local perceber de que “família” nos falam sempre que o assunto é o “Trindade”.

 

Por estes dias, há “pobres criaturas” espalhadas por todo o lado: pelo hall de entrada, em passagens constantes no grande ecrã, em pequenos postais em cima do balcão, num cartaz colocado à entrada. Na imagem principal, Emma Stone. Uma “pobre criatura” que se transfigura de cena para cena, de filme para filme, substituindo, neste caso, o cabelo ruivo de outrora por uma cor mais sombria, mais marcada. Mais condizente com o filme que protagoniza. Tudo devido a Yorgos Lanthimos, o grego mais americanizado do cinema atual (adeus, “Canino”; olá, Hollywood), que leva ao ecrã o novo “Pobres Criaturas”, uma história que passa por Lisboa – e nos oferece Carminho num papel que desconhecíamos, a de cantora-atriz.

 

 

“Tenho muita curiosidade por este novo filme, não sei bem o que será”. A poucos dias do Trindade se encher de festa e comemorar mais um aniversário, encontramos Gabriela Borges sentada no espaço comum, uma espécie de sala de espera de acesso a outras dimensões. “Vim mais cedo, para estar aqui a ler um pouco e relaxar”, admite.

 

Gabriela tem 33 anos, é de Trás-os-Montes, vive no Porto desde 2008. Admite que, por norma, é assim que escolhe os filmes que vai ver, “serem obras de autor, cuja descrição me diga alguma coisa e que, por norma, não estão nos outros cinemas”. Cumpre a rotina escrupulosamente, “uma vez por mês”, com desconto do cartão Tripass. É um cinema que passou de geração em geração, já que o pai frequentou o antigo Trindade e ela, hoje, frequenta a renovada sala.

 

 

“Há um peso emocional aqui, cheio de memórias”, revela, enquanto conta os (90!) minutos que ainda faltam para começar a ver a luz da sala a piscar, como que a anunciar que o filme está prestes a começar. “Este é um cinema ‘ao ar livre’, sem estar abrigado sob os tetos dos centros comerciais. Sem pipocas, sem bebidas, permite-nos estar mais imersos no que está a passar no ecrã”, revela.

 

Público fidelizado ao longo dos anos

 

Esta é, de resto, a principal razão para a reabertura do Cinema Trindade, em 2017: proporcionar uma alternativa de qualidade na cidade, quando o Batalha era ainda uma miragem, e proporcionar memórias a um conjunto alargado de pessoas, que cresceram a ver filmes por entre aquelas paredes. Num passado que habita ainda a cabeça de muitos e as páginas de alguns jornais que repousam em arquivos pessoais, há um “ambiente” que ficou. Que as obras não destruíram. Qualquer coisa que não se explica. Que se sente quando se transpõe a porta. Um cheiro que se reconhece. Não desaparece.

 

“É um espaço onde não vamos apenas para comprar um bilhete e ver um filme. É um local cria dinâmica entre os espectadores, onde se consegue conversar, com tempo, sobre os filmes que foram vistos”.

 

 

Daniela David tem 32 anos, é ela que conhece, melhor do que ninguém, o público do Trindade. Chegou em 2018 à bilheteira do “cinema do bairro”, e a partir daí começou a descobrir uma cidade que desconhecia. “Descobri que há público para todas as propostas, desde o cinema mais comercial até às propostas mais ‘fora da caixa’”.

 

Com muitos desses espectadores criou verdadeiras relações de amizade, tratando-os pelo nome, sabendo ao que vão e adivinhando a escolha da noite. “E até há um fenómeno interessante, que são as pessoas das cidades à volta do Porto que prescindem dos centros comerciais e vêm aqui. Dizem-nos que é uma sorte existirmos”, sorri, orgulhosa, enquanto atende um jovem que procura saber mais sobre o filme “que está no cartaz ali atrás”. Lá está, Emma Stone.

 

Da cabine à sala de casa

 

Na cabine, a controlar as sessões que passam, Rui Sá conta-nos a sua história. O pai foi projecionista dos saudosos Cinemas Lumiére, foi lá que aprendeu tudo o que sabe hoje e foi por aí que começou. Com o fecho deste centro, foi passando pelos cinemas mais comerciais, até chegar, em 2017, ao Trindade. “É um sítio mais calmo, sem dúvida, com um público diferente”. Diferente do que frequentava o Parque Nascente, onde trabalhou. “Mas há na mesma aqueles que chamamos de ‘espectadores batidos’, que estão sempre cá e com quem interagimos mais”, admite.

 

 

Um desses espectadores com “lugar semanal” é Pedro Azevedo, de 40 anos, que acaba de sair de mais uma sessão. “Fui ver o ‘Rosinha’, não é?”, pergunta à companheira. Vem ao Trindade às cegas, mesmo não sabendo o que está. Porque confia em quem programa, porque confia nas escolhas da equipa, porque se sente em casa. “É como se fosse uma extensão do sofá lá de casa, onde estamos confortáveis rodeados das pessoas que conhecemos”, reconhece, com os bilhetes do próximo filme já escolhido. “É o novo do [Aki] Kaurismaki”. Não se lembra do nome, que isto de decorar nomes não é o seu forte.

 

 

“Cerca de 90 por centro dos filmes que passamos aqui não são exibidos pelos cinemas de shopping”, admite Rui Sá. Sabe que o número de espectadores é mais reduzido, mas tem vindo a crescer ao longo dos anos. “Até foi um mundo novo para mim, estava habituado a outro tipo de cinema. Aqui assisto a verdadeiras histórias sobre como o cinema é feito, em conversa com realizadores”, destaca um dos dois projecionistas do Trindade

 

Programa de festas com várias escolhas

 

De 5 a 16 de fevereiro, o Trindade está em festa. Do muito que há para ver, escolhas não faltam: “O Pior Homem de Londres”, de Rodrigo Areias (com a presença do realizador), “Baan: Casa”, de Leonor Teles, “Underground”, de Emir Kusturica, o novo “Priscilla”, de Sofia Coppola, o encantador “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, “Yannick”, de Quentin Dupieux, ou mesmo o clássico nacional “Vale Abraão”, de Manoel de Oliveira (o programa completo pode ser consultado aqui).

 

Destas mãos cheias de filmes, Fernanda Ribeiro, de 75 anos, ainda não escolheu o que ver. Mas que vai participar, disso tem a certeza. “Até porque venho cerca de duas vezes por semana ao Trindade e desta vez não será exceção”.

 

 

Guarda ainda memórias do antigo cinema, “mais para aquele lado [aponta para o fundo], com as salas diferentes”. Movida pelas recordações, pela emoção de fazer parte dessa família que se desfragmentou com o encerramento do velhinho Trindade, voltou ao novo com a mesma vontade que tinha quando frequentava as sessões ainda jovem.

 

Hoje, apurou as escolhas, procura “cinema de autor e europeu”, partilha-as com o marido e admite que a ausência de pipocas é uma “bênção”. “Tudo isso aliado a uma escolha criteriosa de filmes e descontos que a idade já me permite ter, acho que é perfeito, não é?”, sorri. Sim, melhor mesmo é impossível.

 

Texto: José Reis

Fotos: Guilherme Oliveira

Ver também
Notícias