08/10/2021

Foram mais de 60 crianças e jovens de sete instituições do Porto e de Matosinhos que, nesta sexta-feira (de sol e muito calor), se juntaram na Praia de Matosinhos para mais uma edição do encontro de “Surf Adaptado”. Uma atividade inserida na agenda do Porto&Matosinhos Wave Series e que pretende demonstrar que não existem barreiras para a prática do surf.


Rafa, sentado na areia molhada, num fato feito (quase) à medida, explica o mistério das marés. “São as ondas que crescem. Quando enche [as ondas] são maiores e quando a maré fica mais pequena [as ondas] ficam mais longe”. Todos o escutam, pois fala com a certeza de saber o que diz.


“Muito bem, Rafa”, atira o professor Filipe Carreira, que acompanha o grupo de Rafa. O pequeno sorri, como se a certeza que acha ter sobre o mistério das marés fosse a verdade absoluta sobre esse assunto.



“Mas há mais a saber sobre as marés”, continua o formador, um dos que acompanham os grupos espalhados pelo areal da Praia de Matosinhos numa manhã quente de outubro. E explica, com mais pormenor, o que são as marés e o importante que é estar atento ao estado do mar, todos os dias, antes de se fazer(em) à água.


Aquecer antes de entrar na água

Sentados, atentos, seis alunos (com necessidades especiais) do Agrupamento de Escolas do Viso do Porto, ouvem o que o professor, de cabelo dourado pelo sol, fato a meio corpo, tronco nu sob o sol alto de uma manhã de outono (que mais parece de verão), explica sobre os segredos do surf. O que é este desporto, como surgiu, quem o pratica. “E é muito importante que, antes de nos atirarmos ao mar, façamos um bom aquecimento corporal”.


Então, toca a levantar. Todos de pé, rodando os braços para a frente e para trás. Braços e pernas. Pernas e cabeça. Cabeça. Agora deitados no chão, a esticarem o corpo como se se estivessem a espreguiçar. De barriga para baixo. Com o rabo sentado nos pés. Com a prancha amarela ao lado, como testemunha. Que será “montada” dentro de poucos minutos.



“É importante termos os músculos bem acordados para enfrentar as ondas”, ouve-se. “Isso mesmo, Beatriz”, elogia o formador, perante o sorriso rasgado da única rapariga presente neste grupo. Sabem que aquilo que fizerem em terra irá ditar o desempenho no mar. E não querem parecer mal perante os colegas (e o professor).


Cinco anos de um encontro muto especial

Rafa, Beatriz, Tiago; estes são apenas três das mais de 60 crianças e jovens que, na manhã desta sexta-feira, 8 de outubro, se juntaram na Praia de Matosinhos para um “batismo de surf”, na quinta edição do “Surf Adaptado”, atividade pensada para crianças e jovens com necessidades especiais.


“Esta é uma iniciativa que está integrada na Wave Series há cinco anos, demonstrando a responsabilidade social inerente a este projeto”, explica Marcelo Martins, responsável pela Onda Pura Surf Center, entidade que promove, anualmente, a Porto&Matosinhos Wave Series.



Surge na sequência de um “trabalho feito durante o ano pela escola, em que o coordenador desta proposta [André Marqueiro] trabalha com os jovens destas escolas e instituições, sinaliza-os e depois convocamos para que participem nesta atividade”, sintetiza. “Temos muitas entidades novas, a aderirem anualmente, mas temos também muitas que repetem a presença”.


É o caso do Agrupamento de Escolas do Viso. “Já no ano passado cá estivemos e voltamos novamente este ano”, conta-nos uma das professoras que acompanha o pequeno grupo de alunos, enquanto caminha pela areia molhada.


Repetem a presença por saberem que esta atividade faz a diferença. “Os alunos saem daqui com um sorriso na cara, experimentam uma nova atividade, que habitualmente não praticam. E essa é também a nossa função, proporcionar experiências que marquem os nossos pequenos”, sorri com os olhos, porque a máscara não permite ainda um sorriso mais rasgado.



Pé ante pé, os mais pequenos na frente do grupo, os mais velhos atrás, como guardiões de um núcleo protegido. “Beatriz, bora. Vai ser bom”, dá força uma das professoras, como que a motivar os mais temerosos para o belo desconhecido que lhes surge pela frente.


Nesta atividade participaram alunos do Agrupamento de Escolas Fontes Pereira de Melo, da Associação de Desporto Adaptado do Porto, da Associação do Porto de Paralisia Cerebral, da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental do Porto, Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Matosinhos, da Associação Criança Diferente e da Onda Pura Escola de Surf.


Manhã de batismo, tarde de competição

A manhã foi ocupada com os batismos de surf dos mais novos e a tarde foi ocupada por uma competição com 10 jovens que competiam para o troféu de melhor desempenho no âmbito do surf adaptado. Catarina Araújo, vereadora da Juventude e Desporto da Câmara do Porto, e Helena Vaz, administradora da Matosinhos Sport, representaram as respetivas autarquias neste momento tão especial.


“Todas as provas que organizamos ao longo do ano são importantes, mas este encontro é sempre o dia mais feliz e recompensador. É uma experiência inesquecível para todos, que nos recorda, também, a importância do surf como fator de inclusão e igualdade social, assim como o seu enorme potencial terapêutico, quer a nível físico como psicológico”, como destacou Catarina Araújo.


 

Para Marcelo Martins, é importante que “duas autarquias tão importantes como o Porto e Matosinhos, com uma orla costeira tão diversa e extensa, olhem para o mar com este cuidado e atenção, até porque o surf tem um potencial gigantesco em termos turísticos e desportivos, podendo atrair milhares de pessoas em simultâneo”.


O segredo do surf

Mas afinal, o que tem o surf de tão especial para ter tantos adeptos – era ver, nesta manhã, jovens adultos e adultos menos jovens com a prancha na mão, a entrar no mar - e deixar estes alunos maravilhados? Marcelo ri, sabe ser suspeito para opinar sobre este assunto, mas avança uma possibilidade.


“Para mim, o mais especial é o contacto direto com a natureza, com a água, um meio onde nos sentimos bem.” Resumindo: “É uma sensação de liberdade total”. Que passa dos graúdos aos miúdos que, pretende, passe dos miúdos para outros graúdos. “Eu acho que é impossível não ficar viciado”.



Um vício que procura passar a todos estes jovens, com uma componente social bem definida. “Faz parte da nossa missão levar o desporto a todos. Há mais de 30 anos que a nossa escola faz este trabalho, facilitando o acesso a todos aqueles que não conseguem chegar a estas atividades”, assume o responsável.


E eis que chega a hora. O mar está pronto para os receber, de braços abertos. As ondas estão calmas, ideais para estes jovens principiantes. É tempo de enfrentar as ondas que, ao longe, observam os mais pequenos. Um a um, acompanhados da prancha e do professor responsável que nunca se afasta, experimentam essa “sensação de deslizar na água”.



Aproveitam a primeira onda. Repetem a segunda onda. Um a um, de sorriso no rosto, admitem que o tempo podia parar ali e agora. Pela sensação de liberdade plena. Pela experiência que, esperam, se venha a repetir. Que possa perdurar. Porque o surf, quando nasce, pode mesmo ser para todos. 

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