29/12/2025

“Áureos”, o novo filme de Ricardo Leite e um dos projetos apoiados pela Bolsa Neves da Filmaporto, reúne duas figuras incontornáveis da história da cidade: Aurélio Paz dos Reis e Aurélia de Souza. A obra presta homenagem aos dois amigos pioneiros e às paixões que tinham em comum: o cinema, a fotografia, a pintura e a botânica. 

 

Pioneiro do cinema em Portugal, Aurélio Paz dos Reis filmou, em 1896, “A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, inspirado no primeiro filme dos irmãos Lumière.

 

Para além de realizador, foi fotógrafo amador e floricultor, proprietário da loja Flora Portuense, na Avenida dos Aliados.

 

 

Aurélia de Souza destacou-se na pintura e como figura da emancipação feminina, tendo sido uma das primeiras pintoras portuguesas numa época em que a prática artística estava praticamente reservada aos homens.

 

Fui sempre um grande admirador de Aurélio e de Aurélia, mas só há alguns anos descobri que, além de vizinhos, mantinham uma relação de amizade”, explica Ricardo Leite. “Há quem defenda que Aurélio terá sido um dos principais responsáveis pelo fascínio de Aurélia pela fotografia.” A ligação entre ambos estendia-se também à paixão pelas flores, tema recorrente na obra pictórica de Aurélia e parte central da vida profissional de Paz dos Reis.

 

Os nomes dos dois artistas funcionam ainda como elemento simbólico desta obra. Ambos derivam do latim Aurelius, associado a aureus, “dourado” ou “de ouro”. “Na alquimia, o ouro simboliza perfeição, purificação e iluminação espiritual. No filme, o áureo serve para unir estas duas figuras e homenagear duas das minhas maiores referências artísticas do Porto, de Portugal e do mundo”, sublinha o realizador.

 

 

Combinando recriação histórica, episódios ficcionados e uma abordagem experimental, “Áureos” foi filmado em película 35mm, à semelhança dos filmes de Aurélio Paz dos Reis.

 

A rodagem recorreu a uma câmara com cerca de 70 anos que pertence ao portuense Sério Fernandes, figura central do ensino e da história do cinema português, utilizada em “Chico Fininho” (1981).

 

Foram também usados negativos de 16mm com processos de revelação biodegradáveis à base de plantas, transformando a técnica num elemento expressivo da própria linguagem do filme. Esta opção convoca a ligação ao cinema e à botânica, articulando-se com a preocupação ambiental que atravessa a prática fílmica de Ricardo Leite, centrada em processos biodegradáveis de base vegetal.

 

 

O filme foi rodado em vários locais históricos da cidade do Porto, como o Bonfim, Miragaia, a praia do Castelo do Queijo, o Parque da Cidade e percursos no Rio Douro, recriando ambientes associados às antigas casas e vivências dos artistas.

 

Jules* Elting interpreta Aurélia de Souza, enquanto Ricardo Leite assume o papel de Aurélio Paz dos Reis.

 

“Áureos” tem produção de Catarina de Sousa (Foi Bonita a Festa), numa equipa que inclui também Jorge Quintela (direção de fotografia), Sofia Pereira e Daniel Machado (direção de arte), Pedro Ferreira (caracterização e guarda-roupa), Juliana Julieta (assistência de imagem) e Tomás Casaux e António Pinheiro (luz).

 

Imagens: Jorge Quintela 

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