29/11/2021

O número 18 da Travessa das Liceiras é mais que uma casa de dois andares: é um espaço experimental, independente, coordenado por artistas em pleno coração de uma cidade que fervilha a cada canto. Ocupa uma antiga casa residencial que mantém a sua função, mas desta vez com o intuito de servir, acolher e apoiar a criação artística e cultural. O DE LICEIRAS 18, que agora conhecemos, é um dos espaços apoiados pelo programa InResidence da Câmara Municipal do Porto. Batemos à porta.

 

Para encontrar a Travessa de Liceiras é preciso estar atento às placas da toponímia local. Sabemos que fica entre as (movimentadas) ruas de Fernandes Tomás e do Bonjardim, em plena baixa da cidade, mas desconhecemos a ruela em concreto.


O melhor é olhar para as placas com os nomes ou seguir o sempre útil GPS (com as cautelas devidas, para não darmos uma volta à cidade).


A Travessa de Liceiras fica escondida (aos olhares menos atentos) no coração de uma cidade que respira movimento. Como o nome indica, este é um espaço que cruza - e atalha o acesso a - duas ruas, mas que, na maior parte das vezes, é invisível aos habituais utilizadores das artérias mais conhecidas.


É uma travessa de calçada portuguesa, estreita, com luz ténue e com pouco movimento (a não ser ao almoço, já que lá existe uma tasca regional altamente recomendada, a Tendinha da Trindade).



Paramos no número 18, paredes meias com o restaurante. A fachada não desvenda o seu interior, mas alerta-nos que algo diferente acontece ali. “DE LICEIRAS 18”. Ou, simplesmente, DL 18. O espaço rouba o nome à rua e o número à porta para se autodenominar. Não há que enganar.

 

Mais de 200 artistas acolhidos


“O projeto surgiu espontaneamente no verão de 2014 por iniciativa da artista Maja Renn [que, entretanto, saiu do projeto], tornando-se uma das primeiras residências artísticas da cidade”, começa por nos contar Xu Moru, artista chinesa a residir na cidade.


“Começou por integrar convidados da própria Maja e cedo o convite estendeu-se através de candidaturas abertas a artistas de todo o mundo.”


Este é um espaço experimental, independente e coordenado por artistas.



Todos os meses recebe (e acolhe) criativo que formam uma comunidade temporária dinâmica e em constante renovação. No início do ano passado, e por incompatibilidade da Maja em dar continuidade ao projeto, um grupo de ex-residentes e locais tomaram as rédeas e criaram a Associação Eklipsefémero - Núcleo Artístico Independente.

Desde o início do projeto que a DL18 trouxe mais de 200 artistas de mais de 30 países à cidade. Muitos deles acabaram por acolher a cidade após a sua participação no projeto.


São disso exemplo a produtora e artista Emma Dorothy Conley, a artista visual Jiôn Kiim, o performancer e artista visual Andy James, a artista multidisciplinar Chloe Harris, o artista visual Matias Romano Aleman, a curadora, fundador e designer Agustina Diaz Galindez, o artista sonoro Guy Fleisher e a fotógrafa Noam Friedman.

 

Equipa multidisciplinar


Mas Xu Moru assume que este é mais que um espaço de residência.


“Esta é uma comunidade temporária, que se encontra numa casa, com o apoio de ex-residentes locais e internacionais. Mas isto sem tirar o foco e protagonismo a quem cá está a trabalhar nos seus projetos, sendo o mais importante as suas criações e as suas interações com a comunidade”, resume.


Atualmente, a equipa central do projeto é composta pelos membros integrantes da associação: Xu Moru (China), Matias Romano Aleman (Argentina), João Moura (Portugal), Leon Billerbeck (Alemanha), Bruno Gomes (Portugal), Philipp Gruber (Alemanha), Mariana Castro (Portugal), Elena Strok (Croácia) e João Campos (Portugal).

Uma equipa multicultural e multidisciplinar, que surgiu do encontro neste espaço – e que nunca mais se separou.



“Promovemos a criatividade, partilha comunitária, acreditando que este possa ser um mote para a superação individual e coletiva, gerando uma comunidade em constante mutação, onde a criação ganha prioridade ao medo de falhar, e onde a vontade de partilhar é amplificada”, esclarece Xu, como se esta fosse a receita – que não falha – para um espaço que apoia a criação independente dê certo. 

 

Programação diversificada


O espaço de residência tem uma programação que varia conforme a vontade dos residentes. “Tipicamente, no final de cada mês os artistas abrem as portas da residência durante uma tarde ou noite e exibem as suas criações”, esclarece a artista, uma das responsáveis do projeto.


Mas vai ainda mais além, incluindo performances, concertos, workshops, conversas e palestras, e estender as suas atividades a outros locas, como o Espaço Musas, o Centro Comercial STOP, o CCOP ou o espaço OKNA, entre outros.



O espaço não se encontra aberto ao público, mas as visitas podem ser feitas mediante marcação com os próprios residentes ou com alguém associado à equipa.


Para a equipa que coordena o espaço, “a DL18 pretende assim ser uma espécie de traseiras do mundo das artes. Um sítio seguro para experimentar e desenvolver ideias”.


Um espaço livre, heterogéneo, diverso como a zona que o envolve e os locais que o abraçam: uma antiga oficina de sapateiro, um clube de motards e uma tasca tradicional. Sem esquecer o bordel, que espreita pela porta das traseiras.


Mais informações: DE LICEIRAS 18 | Facebook

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