Com o Rio Douro como pano de fundo, o programa cultural "MALHA. Porto, património de pessoas" foi, esta quinta-feira, apresentado, sendo reveladas as dezenas de atividades que, ao longo dos próximos doze meses, vão convocar a comunidade para o espaço público. Descrevendo o projeto como "auspicioso", o presidente da Câmara apelou "à alma tripeira" que carateriza a cidade como fonte de inspiração para se pensar, redescobrir e viver a Invicta.
No ano em que se celebram os 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da Unesco, assinalando-se ainda as comemorações dos 25 anos da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, o "MALHA. Porto, património de pessoas" traz à comunidade a oportunidade de pensar a cidade a partir de múltiplas perspetivas, tendo como bússola a "monumentalidade invisível, intangível e humana" da Invicta, reiterou o vereador da Cultura e Património, Jorge Sobrado.
Através de um programa cultural pensado por dez comissários de diferentes áreas, o projeto representa mais do que uma possibilidade "de evocar ou relembrar um marco histórico da cidade", destacou o presidente da Câmara, Pedro Duarte, lembrando: "Estamos a projetar para o futuro".
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Imbuída no "espírito de comunidade que se sente em cada esquina da cidade", enalteceu o autarca portuense, a apresentação da programação aconteceu num local "simbólico": os jardins da casa de família do professor Oliveira Martins, que se localiza na zona envolvente da Sé do Porto.
"O MALHA não será um programa de salões"
"Podíamos fazer esta apresentação na nossa casa, mas a escolha deste local não foi um acaso. O MALHA não será um programa de salões", explicou Jorge Sobrado, notando que a proximidade com as pessoas que vivem no Porto será um fator chave no sucesso do programa, que se prolonga até ao próximo ano.
Olhando para uma programação que inclui visitas guiadas, caminhadas, espetáculos, convívios, sessões de cinema, oficinas, concertos, conversas, ações comunitárias e novas intervenções artísticas, Pedro Duarte garantiu que, em cada momento, o foco serão as pessoas, as suas memórias e as suas experiências. "Queremos sobrevalorizar os moradores desta zona [Centro Histórico] e de todo o território da cidade", enfatizou o presidente da Câmara, lembrando que "é no espaço público que tudo vai acontecer".
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Como um convite para observar, pensar, viver e projetar o Porto, o programa cultural – cujo nome remete para uma ideia de ligação – foi apresentado em formato de jornal, no qual constam cinco eixos de ação, estando materializados em iniciativas com diferentes propósitos, todas com entrada livre.
Eixos da programação
Sob o tema "Contar a cidade", os comissários Minês Castanheira e Joel Cleto vão percorrer caminhos orientados pelas narrativas, lugares, memórias e gestos que moldam a identidade do Porto. Museus, bibliotecas, livrarias e outros espaços culturais tornam-se pontos de encontro para preservar e reinventar este património coletivo.
Germano Silva e Joel Cleto coordenam, até dezembro, um ciclo de visitas ao Centro Histórico, com percursos que vão incluir acesso a locais que tradicionalmente os residentes não frequentam. Até janeiro de 2027, também o projeto "Sobre a minha Cidade" convida os poetas do Porto para mapear e recolher alguma da produção poética sobre a cidade das últimas três décadas.
Através do eixo "Dançar a cidade", os curadores Luísa Saraiva e Paulo Vinhas promovem iniciativas pedagógicas, projetos comunitários e espetáculos que ocupam maioritariamente o Centro Histórico. Destaque para o projeto "Meteorito Merce", que envolve a comunidade escolar da cidade e vai buscar inspiração a um episódio de maio de 1981, em que a companhia do coreógrafo norte-americano Merce Cunningham apresentou um evento na Escola Secundária Garcia de Orta, no Porto.
Com o eixo "Convocar a cidade", sob a alçada de Joana Meneses Fernandes e João Ferreira, serão promovidos espaços de partilha, onde diferentes comunidades se encontram, trocam experiências e constroem em conjunto uma ideia contemporânea de cidade.
Até ao final do ano, em parceria com a Fonoteca Municipal do Porto, o projeto "Grandes Malhas" convida habitantes da cidade a escolher uma música favorita a partir do Arquivo da Fonoteca ou com a qual mantenham uma relação afetiva, biográfica ou identitária relacionada com a cidade.
Já em "Curadorias Domésticas: Antropologias do Belo", o público é convidado a olhar para os espaços domésticos em busca das relações construídas entre as pessoas e os seus objetos. Este ciclo divide-se em diferentes momentos, prolongando-se até 2027.
No eixo "Riscar a cidade", a criação artística contemporânea ocupa o espaço público através de propostas plásticas, performativas e reflexivas desenvolvidas por artistas de diferentes gerações e percursos, tendo a curadoria de Rita Roque e José Almeida Pereira.
Em "30 Anos de Arte Contemporânea", está prevista a apresentação pública da coleção de arte contemporânea do Município, construída ao longo dos últimos 30 anos, em diálogo com o Museu e Bibliotecas do Porto.
Andreia Garcia e Álvaro Domingues propõem "Pensar a cidade", num eixo que pretende refletir sobre a transformação da cidade em destino e do Centro Histórico em cenário.
Neste âmbito, decorre o ciclo "Entre Palavras", que divaga pelos cafés da cidade, no qual os oradores são convidados a discutir o património enquanto construção ideológica e prática situada, atravessada por relações de poder, afetos e exclusões. No final do ano, vai ainda decorrer a conferência "Porto+3P: Património, Paisagem, Pessoas", que se propõe a debater criticamente as últimas três décadas do Porto como Património Mundial.
Além da programação prevista na sequência dos eixos que caraterizam o programa cultural, há ainda oportunidade do público se integrar no MALHA em Rede – que não é mais do que um convite aos portuenses para um reencontro com uma ideia e uma experiência de cidade.
Neste sentido, o ciclo "Uma Palavra e Seus Discursos" apela à redescoberta, até outubro, de 11 palavras eminentemente portuenses. Já o projeto "Caminhos a Oriente" reflete a vontade do Município de desenvolver, através do Matadouro — Centro Cultural do Porto, programas culturais e de investigação dedicados ao Vale de Campanhã e à zona oriental da cidade.
Foi no Guindalense Futebol Clube, em dezembro de 2025, que decorreu a apresentação do "MALHA. Porto, Património de Pessoas", assinalando o ponto de partida de 12 meses de atividade — seis dos quais antes e outros seis após o 30.º aniversário da classificação da UNESCO.
Há cerca de dois meses, o projeto teve desenvolvimentos através do fórum "PORTO. Regresso ao Futuro: 1996 – 2001 – 2026", no qual diferentes oradores refletiram sobre o legado cultural da cidade.
Texto e Fotos: Porto.