O programa “Matinés do Cineclube” continua a aprofundar a ligação histórica do Batalha Centro de Cinema ao Cineclube do Porto. Até março, quinzenalmente aos domingos, o ciclo propõe uma revisitação crítica de momentos-chave da vida do mais antigo cineclube português ainda em atividade, sublinhando o seu impacto cultural na cidade e no país.
Entre janeiro e março, a programação centra-se no género do thriller, reunindo filmes exibidos pelo Cineclube do Porto entre 1949 e 1985, atravessando diferentes épocas, contextos políticos e cinematografias. A seleção cruza clássicos incontornáveis com obras menos revisitadas.

O programa retoma a 11 de janeiro com “The Lady Vanishes” (1938), de Alfred Hitchcock, um dos grandes sucessos britânicos do realizador e peça-chave da sua afirmação internacional antes da ida para Hollywood. A narrativa, construída em torno de um desaparecimento inexplicável num comboio, combina suspense, humor e comentário social — fórmula que viria a definir grande parte da sua obra.

Segue-se, a 25 de janeiro, “Riso amaro” (1949), de Giuseppe De Santis, marco do Neorrealismo italiano e enorme êxito de bilheteira na época. Protagonizado por Silvana Mangano, o filme foi polémico em Portugal e chegou a ser proibido pouco depois da estreia. Entre erotismo, crítica social e drama criminal, permanece uma referência incontornável do cinema europeu do pós-guerra.
A 22 de fevereiro é exibido “No Way Out” (1950), de Joseph L. Mankiewicz, um poderoso noir que assinala a estreia de Sidney Poitier no cinema. O filme confronta de forma direta o racismo estrutural na América segregada, integrando o thriller policial numa narrativa de denúncia social — algo pouco comum no cinema de estúdio da época.

Já a 15 de março, o programa apresenta “Un flic” (1972), de Jean-Pierre Melville, o último filme do realizador francês. Com Alain Delon, Catherine Deneuve e Richard Crenna, esta obra depurada e melancólica dissolve as fronteiras entre lei e crime, consolidando Melville como uma influência central do cinema moderno, de Michael Mann a Quentin Tarantino.

O ciclo encerra a 29 de março com “Eyewitness” (1956), de Muriel Box, num gesto deliberado de correção histórica. Consciente da escassa visibilidade dada às mulheres na realização cinematográfica, o Cineclube do Porto apresenta pela primeira vez um filme que nunca exibira. Box foi a cineasta britânica mais prolífica do século XX, com 13 longas-metragens realizadas entre as décadas de 1950 e 1960, e este título confirma a sua mestria no suspense psicológico e na construção de tensão urbana.