A artista catalã regressa à cidade do Porto, agora para um concerto em nome individual no ciclo Porto Sounds Secret. Com ela vem também o guitarrista Darío Barroso, um músico que Judit diz admirar muito. Prometem um final de tarde cheio de alegria, alguma emoção e um verdadeiro elogio à música feita dos dois lados da fronteira. A propósito desta data, agendada para o Auditório Paroquial de São Martinho de Cedofeita, no próximo domingo, 17 de maio, às 17h00, sentamo-nos para alguns minutos de conversa com Judit Neddermann, que diz ser “muito feliz no palco” e que gostava de voltar ao Porto “todos os anos”.
Esta não é a primeira vez que visitas o Porto, mas é a primeira data em nome próprio.
É a segunda vez que cá estou. A primeira foi em 2024, quanto toquei com a MARO no concerto que deu [no Teatro Sá da Bandeira]. Convidou-me para entrar no espetáculo porque somos muito, muito amigas. É como uma irmã para mim (risos). E foi maravilhoso, ainda me lembro do público desse concerto, senti-me muito acarinhada porque gostaram das músicas que apresentei. Estou muito feliz por voltar, agora, para um concerto meu. E ainda por cima com o Darío Barroso [guitarrista], um músico de quem gosto e que muito admiro. Já toco com ele desde 2018 e é sempre especial. Mas sim, o Porto é uma cidade que me “roubou” o coração. É linda e tem uma energia incrível. Ainda me lembro de ter visitado o Mercado do Bolhão, de ver aquelas pessoas todas. São lembranças bonitas que guardo e que espero agora voltar a encontrar (risos).
O público, aquele que te viu em 2024 e aquele que vai agora descobrir os teus temas, o que pode, habitualmente, esperar de um concerto teu?
Bem, acho que a melhor forma de avaliar o impacto que um concerto tem é através das opiniões de quem vê. O que me dizem é que faço espetáculos muito íntimos e transparentes. E é verdade, em cima do palco sou eu mesma. Gosto de partilhar a minha música, algumas piadas e histórias ao longo desse encontro. E sou muito feliz no palco (sorriso). Isso transparece durante os concertos, através das minhas músicas, que falam de amor, da vida, de pessoas, de relações, do mundo. É ali que mostro tudo o que me inspira.

Aliás, a música faz parte da tua vida deste sempre. Vens de uma família de músicos, é algo que te acompanha desde os primeiros dias de vida.
Sim, sim. Aliás, costumo dizer que os meus primeiros concertos foram dentro da barriga da minha mãe (risos). Os meus pais são músicos, lembro-me de ver a minha mãe, que é guitarrista, em palco, e o meu pai a cantar com os olhos fechados, como que a sentir todas as palavras que dizia. Essa imagem acompanhou-me desde sempre. E pensava “eu também quero isto”. Tenho vídeos com três anos, com um microfone na mão, e ouve-se o meu pai a dizer: “Agora, Judit e Pat Metheny”. Ouvia-se a música de fundo e eu a cantar muito desafinada (gargalhada). Isso acabou por me marcar muito. Quando decidi seguir a música, foi algo muito natural, deram-me toda a força para ir em frente e que, no fundo, só queriam que eu fosse feliz.
O que te influencia mais nesse processo de criação e composição dos teus temas?
São, principalmente, as emoções. A vida, as relações, algo que vives, o agradecimento que vais sentindo por todas as experiências que vais tendo. O amor, a amizade, a alegria…
… mas algum deles está mais presente?
A alegria de viver, sem dúvida. Isso e a família, o amor que existe, não apenas o romântico. (pausa) Há ainda a morte como um processo de vida. Acho que há um nível de espiritualidade grande na minha música. Não é muito evidente, eu sei, mas acho que está lá. Muitas pessoas dizem-me que ouvem a minha música quando nasce alguém na família. No outro dia, uma mulher contou-me que a irmã lhe pediu para ouvir as minhas músicas antes de morrer. Isso teve um grande impacto em mim, alguém que escolhe as minhas músicas para ouvir antes de morrer… (silêncio)

Mas falemos, então, deste concerto agendado para domingo. O que é que nos vais mostrar?
Posso dizer-te já que vou cantar todas as músicas que tenho em português, porque é o lugar ideal para as apresentar (risos). Selecionei ainda algumas canções dos discos anteriores que acho que se podem conectar bem com o público do país. Fiz um repertório especial com foco em Portugal. Vou ainda apresentar alguns temas novos, que surgiram depois de grandes mudanças na minha vida, no final do ano passado. No fundo, será uma hora feita de temas que marcaram diferentes momentos da minha vida.
E quanto ao futuro, o que tens para nós?
No outono deste ano vou lançar um disco de música catalã, com um trio incrível de música clássica. Estou muito feliz por cantar música catalã, sabes? Porque me sinto muito ligada com essa terra, com a língua. O que faço é tentar respeitar este amor que tenho pela minha identidade e levá-la a todo o lado. É como se fosse uma forma de me abrir aos outros, juntando as minhas emoções todas num só disco e uma maneira de agradecer todas as oportunidades que a vida me tem oferecido.
E, quem sabe, se depois deste concerto, não voltas ao Porto para apresentar esse novo disco…
Ai, eu espero que isso aconteça. Sim, sim, sim. (gargalhada) Acho que devia voltar todos os anos. Ia ser incrível. (pisca o olho e solta nova gargalhada).
Entrevista: José Reis