02/09/2026

Na rentrée cultural, o Porto Sounds Secret apresenta um novo concerto num sítio fora do habitual. A 20 de setembro, às 18h00, os Collado estreiam-se no Porto com um espetáculo que funde sonoridades dos dois lados da fronteira. Excerto de uma entrevista alargada com a banda, publicada na Agenda Porto de setembro.

 

Collado (em castelhano pronunciado “cólhado”) significa “colina”, “cerro”. É também o apelido de Javi, músico de Cuenca que decidiu convidar sete amigos a erguer um lugar que abarcasse muito do folclore da Península Ibérica. E, ao contrário da "Jangada de Pedra" de Saramago, o território criado pelo grupo move-se sem se desprender das raízes.

 

Neste octeto, formado por gente na casa dos 30, 40 e 50, todos cantam e todos tocam percussão, com pandeiretas, colheres, adufes ou tambores, mas também há um violino de cinco cordas e um bandolim, uma espécie de guitarra pequena (a jarana), outra grande (a leona) e uma espanhola, um baixo elétrico e uma gaita asturiana. Além de Javi Collado, integram o grupo a percussionista Alba Chácon e a violinista Esther Sánchez (de Madrid), a cantora Ángela Furquet (de Castellón, mas a viver em Barcelona), o baixista Dani Vallejo e o gaiteiro Sergio López (respetivamente de Valladolid e Ponferrada, ambas na região de Castela e Leão), e ainda o guitarrista e flautista Pedro Bartolomé (de Colmenar Viejo, localidade madrilena) e a cantora portuense Teresa Melo Campos.

 

O interesse de Teresa pelo cruzamento de culturas veio do berço. É “filha de pais viajantes”, que a levaram “para a China quando tinha seis anos”. Estudou em Londres, na Guildhall School of Music & Drama, integra o Çhâñt Élečtrónïqùe, coletivo composto por várias nacionalidades, e, por cá, além de ser cofundadora das Sopa de Pedra, dirige o “Porto da gente, Porto presente”, projeto que reinterpreta a tradição musical da sua cidade e das regiões vizinhas. Uma biografia com mundo, mas preenchida por música comunitária e apego ao território.

 

Em conversa com a Agenda Porto, diz que se lembra de Pedro Bartolomé dos “tempos áureos da ESMAE”, em que “toda a gente à volta” da escola “eram músicos”. O madrileno, enquanto se formava em Espanha, veio à Invicta fazer um curso com o professor Pedro Sousa Silva e conta que ficou “um pouco apaixonado pelo ambiente”, em que todos eram “muito, muito acessíveis, muito simpáticos”. Gostou que houvesse “pessoal a tocar o dia inteiro” e “salas de aula abertas 24 horas, 365 dias por ano”. Sentiu que “podia estudar e tocar quando quisesse”, além de que “havia sempre muita gente com quem sair, dançar…”. Acabou por se licenciar na instituição, em Música Antiga, com especialização em Flauta, mas à distância: vinha ao Porto apenas uma vez por mês, enquanto dava aulas de música em escolas primárias na sua terra, e no verão vinha por mais tempo.

 

 

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Para lá dos concertos espalhados por Espanha, nos últimos anos os Collado têm também organizado os seus próprios encontros, reunindo músicos que os vários membros vão juntando à sua volta. “É para partilhar o que vamos aprendendo”, indica Teresa, “porque cada um de nós começou a ter um coro ou um grupo de percussão – ou um grupo de percussão que canta – em torno de música de raiz tradicional”. Em 2025, encontraram-se em pleno centro da península, no pequeno município de Cercedilla, na Serra de Guadarrama, e este ano escolheram uma localidade junto à fronteira entre as duas Estremaduras. “Fazemos como se fosse um festival, tipo aquele em que nós nos conhecemos”, detalha a portuense. Numa era em que estas conexões “se multiplicam muito rapidamente” e de forma “irresistível”, Teresa acha que as pessoas que reúnem veem este género de envolvimento como “uma forma de revolução”. A ideia, completa Pedro, é que se criem “também redes entre alunos”, fugindo de formatos em que “sejam apenas os professores a mandar”.

 

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Pedro Bartolomé concorda que os concertos “mais de rua”, em que tocam próximos do público, talvez sejam os “mais especiais”. Mas do trajeto da banda destaca duas atuações do passado mês de janeiro em auditórios de Barcelona e Madrid, em que atuaram justamente com as Sopa de Pedra. “Mais do que pelos lugares em si, pela irmandade e por juntar os dois projetos, foi bestial”, diz num português bem decente. Lembra ainda um espetáculo no tal Encontro de Música Tradicional Ibérica, por ser um regresso ao local de origem, em que o organizador falou deles como se fossem “seus filhos” e os deixou “todos a chorar, como putos”, recorda sorrindo.

 

Ambos mostram entusiasmo por finalmente se estrearem em Portugal e poderem quebrar uma fronteira que não há na sua música. “Sinto que, para mim, como portuguesa mitra num projeto cheio de gente de várias regiões [espanholas], é muito interessante aperceber-me de que somos a mesma coisa”, explica Teresa, considerando que por cá se conhece muito pouco “da tradição do lado, fora o flamenco”. Também por isso “este concerto que vem aí é muito importante”, e desejam que seja apenas um início: “há muito caminho para percorrer, esperamos tocar por Portugal fora”.

 

A 20 de setembro, os Collado atuam no Porto Sounds Secret, ciclo programado pela empresa municipal Ágora em locais da cidade mais ou menos inusitados. O local do concerto, até agora em segredo, será a Galeria da Biodiversidade.

 

Ler entrevista na íntegra aqui.

 

Texto: Francisco F. Ferreira / Agenda Porto

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