22/06/2021

A segunda edição do Desporto no Bairro já iniciou nos bairros da cidade, tendo alargado a oferta, neste ano, ao surf e ao skate. O breaking, que foi a base do lançamento do programa municipal no ano passado, continua a ser uma das atividades com maior adesão. Estivemos com alunos e formadores numa visita a Fonte da Moura, um dos quatro bairros que recebe as aulas semanais desta modalidade olímpica.


É um filho do bairro. Aos 37 anos, Paulo Maia, mais conhecido como Aiam (lê-se “ai-éme”, em inglês, num jogo de letras com o seu apelido), faz uma viagem no tempo. “Tudo começou aqui, tinha eu 15 anos”. O aqui é o bairro da Fonte da Moura, o agora é o ano 2021, que contrasta com um passado distante, ainda nos anos 90. “Começou naturalmente, em Aldoar, muito novo, a partir da cultura hip hop que estava a surgir em força nessa altura”.


Começou a dançar. Na rua. Movido pelas influências que lhe chegavam de outras latitudes. Hoje é break-boy. Ou simplesmente B-Boy. É ele, nesta tarde de sábado, de um junho que parece agosto, tal o calor que se faz sentir, que orienta um grupo de pequenos rapazes que se junta, sob o sol do início da tarde, no recinto desportivo do bairro. É o regresso do breaking a este espaço. É o regresso do desporto ao bairro. Do Desporto no Bairro. “Já na primeira edição fomos distribuídos por vários bairros e pedi para ficar neste sítio, porque nasci aqui, em Aldoar e Fonte da Moura, e toda a minha infância foi passada aqui. Era uma nostalgia para mim vir para aqui e assim foi”.



Regressa onde foi feliz. Na infância, na juventude, nos anos passados, no presente. “Eu falo a mesma língua que eles. Percebo pelo que eles passam, onde eles vivem, como estão. E fico contente por estas iniciativas acontecerem em bairros como este, porque vai desviar estes miúdos para caminhos e decisões bem melhores”, revela, num espelho da sua experiência pessoal.

 

Regresso ao breaking aos bairros

Aiam é um dos monitores das aulas de breaking, a única modalidade repetente no Desporto no Bairro, que iniciou já a segunda edição em vários locais da cidade. Um programa da Câmara Municipal do Porto, através da empresa municipal Ágora - Cultura e Desporto do Porto, com o objetivo de alargar as atividades desportivas aos bairros da cidade, despertando o interesse e curiosidade dos mais novos por estas modalidade.


Para além do breaking, o Desporto no Bairro inclui, nesta nova edição, as modalidades de skate e surf, alargando o leque de oferta e a possibilidade de afirmação da prática desportiva junto de locais mais desfavorecidos. O Bairro da Fonte da Moura é um desses lugares. Volta a ser ponto de encontro, de contacto com estas atividades desportivas. “O ano passado foi incrível, foi surpreendente, foi extremamente difícil devido à situação que vivemos atualmente, mas acho que este ano acaba por ser mais tranquilo para nós porque já há uma ligação com os miúdos do bairro, nós chegamos aqui e já não é novidade”.



Max Oliveira, um dos representantes maiores do breaking nacional além-fronteiras, é o coordenador do projeto. Revela que regressar aos bairros, depois da primeira edição, é uma sensação “incrível”. “Sou do Porto e fazer um projeto destes com os bairros da minha cidade – neste ano com os bairros de Fonte da Moura, Lagarteiro, Contumil e Pasteleira - faz-me sentir mesmo muito bem. Estou aqui e só me apetece estar a dançar e a partilhar com eles. E sentir que eles estão aqui com tudo, que chego ao bairro e eles me abraçam, faz-me sentir concretizado. Estou concretizado de uma forma muito positiva e agradeço à Câmara Municipal do Porto a aposta num programa tão importante e fundamental como este”, revela Max.

 

Fazer vida no breaking

Micha (alcunha pela qual é conhecido, tal a dificuldade em soletrar o seu nome) é feito de três partes. “Sou ucraniano, russo e português”. Tem 12 anos, nasceu já no Porto, filho de pais do Leste da Europa. Natural no Bairro do Cerco, vive na Fonte da Moura há alguns anos. Participou nas atividades do ano passado e assim que soube que o Desporto no Bairro (e as aulas de breaking) iam voltar, não teve dúvidas. “Fiquei entusiasmado e procurei logo os horários e os dias. Gosto de experimentar coisas novas, praticar aquilo que me faz bem e gosto de fazer exercício.


Já tinha feito breaking, desisti um bocado nos últimos meses, mas com o regresso das aulas fico ainda mais contente”, revela. Deixa de lado, por uns meses, o futebol, outra das paixões, para aprender mais “truques” do breaking. “O que é mais difícil para mim é o helicóptero [movimento em que as pernas parecem as hélices], sei fazer mas é preciso ter muita força nas pernas e nos braços”, diz.


Não falta a nenhuma aula, “não quero desperdiçar nenhum minuto com eles”, até porque, assume Micha, “quero ser como eles”. “Eles divertem-se a fazer isso e se fosse o meu trabalho eu também me divertia. Se me divirto em pequeno, vou divertir-me a fazer isto quando for maior”, assume o pequeno ucraniano-russo-português, ansioso por fazer parte do espetáculo final.


 

Educadores à paisana no bairro

O breaking, cuja origem se deu nas ruas e bairros norte-americanos, é uma expressão de afirmação de uma geração, de uma cultura, de crenças e convicções que a cultura hip hop acabou por tentar democratizar. Assente numa dança interventiva, de grupo, não é necessário qualquer investimento para que qualquer pessoa possa experimentar esta modalidade. “Basta um linóleo como este [aponta para um quadrado preto no chão], a que chamamos de ‘oleado de breaking’, e uma coluna de som. Até pode ser um telefone. E nada mais. Não necessitas de nada mais que o teu corpo. É a grande vantagem que esta modalidade tem”, revela Max Oliveira, assentando nessa realidade os números expressivos de participantes nas oficinas.


“Estamos a falar de cerca de 150 participantes que aparecem nas aulas, na totalidade. Por cada polo e aula realizada aparecem 20 a 30 miúdos, o que é um excelente sinal”. E para que tal aconteça, há aspetos essenciais a levar em conta. “Aqui somos iguais a eles, somos apenas uns miúdos um bocadinho mais graúdos, e como tu vês ninguém está aqui com a postura de professor. Aqui a ideia é entrosarmo-nos mesmo com eles, como se esta fosse uma função de educadores undercover, educadores à paisana. Olha, isto é um nome giro”, ri Max.


E esclarece: “Porque sempre que vemos que se desviam ou vão por um caminho errado, ou que partem para outro caminho menos bom, nós intervimos de uma maneia ligeira e tranquila de forma a pô-los no trilho certo”, conclui. As aulas nos bairros continuarão até ao final de junho. Depois, a partir do início de julho, os bairros (e os seus miúdos) vão até à academia MXMArtCenter, onde será aprimorado o trabalho para o espetáculo final, a ser apresentado em data e local a anunciar brevemente.


 

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