24/11/2021

Depois de o querer domar, o coreógrafo grego Dimitris Papaioannou está pronto para destruir o mal (ancestral e antiquado) do mundo. Para isso convoca os cúmplices do costuma e usa a simulação de um touro em palco, para exorcizarmos os nossos demónios. Quer libertar-nos de um passado pesado, mas para isso precisa que aceitemos o desafio. A 3 e 4 de dezembro, às 19h30, juntamos a nossa força à força dele no Teatro Rivoli?

 

Encontramos, pela primeira vez, o grego Dimitris Papaioannou no Teatro Municipal do Porto em 2018. Trazia na bagagem (uma bagagem tão grande que não cabia num camião daqueles bem grandes) o mais recente trabalho, “The Great Tamer”.


No centro do palco do Grande Auditório do Rivoli vimos um homem, um homem sozinho, desdobrado em diferentes homens (e o género, neste caso, não é relevante na história a contar).



Como se este homem fosse o verdadeiro domador de tudo o que se desenrolou a seguir, um mundo a acontecer num palco pontuado de momentos de drama, de humor, de cor e negritude. O mundo a girar, todos os dias.


No espetáculo, o coreógrafo questionava a identidade, o passado, o legado e a interioridade. Através do homem em palco, em constante confronto e desafio com o que via, com o que não via. Com o que víamos, com o que não víamos. O grande domador no centro do mundo. Um mundo negro, com pouca cor.


Isto em 2018.



Agora, 2021.


Dimitris (um velho conhecido do TMP) regressa ao Rivoli. A bagagem, essa, continua a ser tão grande que não cabe num camião daqueles bem grandes (como outrora não coube, como futuramente não caberá, atiramos nós).

Mas, desta vez, o mundo dá lugar a novas cores e a novos ocupantes. Ou melhor, a um ocupante… especial.


Mas já lá vamos.


O novo “Tranverse Orientation”, que o Teatro Municipal do Porto apresenta a 3 e 4 de dezembro, às 19h30, no Rivoli, é uma antítese do que já vimos: o escuro dá agora lugar ao claro, o negro dá lugar à luz, a desilusão dá lugar à esperança.



Neste trabalho, o artista grego – que ganhou fama mundial a partir da majestosa abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas, que preparou para a edição de 2004 - coloca o foco na luz, recuperando a clareza (ou a luminosidade) dos trabalhos anteriores, como “Primal Matter” (2012).


É com base neste elemento que ergue um espetáculo que explora a destruição de modelos antigos, a criação de novos e a consequente redescoberta de valores originais, convidando o espectador a examinar a relação com os seus antepassados.

 

Elemento especial


Como na generalidade dos seus trabalhos, o foco do novo espetáculo está no corpo humano, forte e trabalhado, curioso e em busca de novas dimensões.


Mas há aqui, desta vez, um ocupante “especial” – o tal a que aludíamos atrás: um touro (real na dimensão, fictício na sua carnalidade), que simboliza o poder violento e antiquado, castrador e esfomeado, que ocupa, com os seus movimentos sincopados, marcantes, hipnóticos, o palco e o espaço cenográfico.


Todos em palco se unem para o matar, como que a simbolizar o corte com um presente que querem que seja passado.


E, todos juntos, vão consegui-lo.



O touro é morto, numa alegoria ao herói Teseu que matou o Minotauro (meio homem, meio touro) em Creta: têm o intuito de buscar a esperança de um futuro melhor.


É nessa busca que se centra o enredo, onde os bailarinos se movem como animais, como insetos ou como criaturas míticas divinas.


Constroem movimentos que se assemelham a estátuas e que nos transportam para memórias de obras conhecidas. Unem os seus corpos em cena, formando um novo corpo. A parte inferior nua do corpo de uma bailarina forma uma única figura, colado ao torso de outra. Uma mão imita uma língua.



Ainda assim, Papaioannou admira e tem compaixão pelos arquétipos que simbolicamente considera: "Eles definiram o curso da história e deram aos humanos uma direção". Não os esquecer, mas não os perpetuar.


Transverse Orientation” é uma ode (dramática) e uma despedida aos seus ancestrais. No final ficamos nós, espectadores, para contar a história (e para seguir em frente), já com o touro prostrado, em palco.

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