De 6 a 8 de outubro, o Queimódromo do Porto transforma-se num “Skatódromo” e acolhe a última etapa da Liga Pro Skate deste ano. Entre infantis e veteranos, atletas de topo e de desporto adaptado , o programa é extenso e vai coroar os reis do skate (masculino e feminino). A poucos dias do arranque, entrámos no espaço e acompanhámos os preparativos com a ajuda de duas promessas desta modalidade.
Aos 13 anos de idade, o objetivo para o qual pratica todos os dias – “a meio da tarde” - é apenas um: 2028. Ou melhor, “competir nos Jogos Olímpicos que se realizam em 2028”. Matilde Ribeiro, cabelo bem comprido debaixo de um boné transformado em imagem de marca, começou há poucos anos a ver a “tábua” com uma “vibe divertida”, “como se estivesse sempre em casa” quando desliza com o skate pelas ruas. “É como se entrasse noutro mundo”, assegura.
No “incrível mundo do skate” o importante não é saber andar; o mais importante é a determinação para não desistir, é ter força de vontade - mesmo quando se parece não ter jeito para a coisa -, é procurar sempre alcançar o que os outros também conseguem fazer. E, quando damos conta, o skate já voa debaixo dos nossos pés, como se fosse o par de sapatos que nos leva a “planar” sobre este “mundo encantado”.

Ao lado de Matilde, Rafaela Costa sorri, sabendo o que cada palavra quer dizer. Rafinha, como é conhecida no mundo dos skaters, tem 18 anos, mas é uma das jovens atletas conhecidas além-fronteiras. Participa em campeonatos nacionais e integra cartazes de competições internacionais, mas nem sempre consegue alcançar o que pretende, porque o skate não é uma disciplina exata, feita a régua e esquadro.

“Este ano não tem sido o meu melhor , não tenho conseguido ir ao pódio como gostaria, espero que no próximo tudo corra melhor”. Com otimismo, sorriso no rosto e com o sol das três da tarde a bater no cabelo alourado pelas horas a fio a treinar no seu skate.
Filosofia de vida sem idade
Vestem largo, camisolas com símbolos, marcas nos pés, skates personalizados, detalhes que se tornam imagens. Porque este é mais que um desporto, “é uma filosofia de vida que começa cada vez mais cedo e que vai até cada vez mais tarde”.
Paulo Ribeiro é a prova disso. Aos (quase) 50 é o coordenador nacional de skate da Federação de Patinagem de Portugal e, claro, não larga o skate. Na tarde em que o encontrámos , eram mais dois braços a carregar o muito que havia ainda a construir para os grandes dias de prova.
Pela primeira vez na história da competição no Porto, a Liga Pro Skate vai decorrer no Queimódromo, “um espaço com todas as condições, bem enquadrado e com possibilidades de fazer crescer ainda mais o evento”, assume.

As árvores que ladeiam o Skate Park de Ramalde dão agora lugar ao verde do Parque da Cidade e à maresia que chega do fundo , do Atlântico. “Mas também a quadra construída aqui é diferente, com uma maior uniformização de proximidade dos atletas e das bancadas, criando ainda um maior espírito competitivo”, assegura Paulo, enquanto o telefone toca perante mais uma dúvida.
Tem sido assim nos últimos dias no Queimódromo do Porto, com o transporte de bancadas, rampas e tábuas construídas e que, em uníssono, criam uma sinfonia de martelos, brocas e berbequins.
200 atletas participam na prova
O cansaço é muito, mas o sentimento é o mesmo: missão. “Muitos dos que vês aqui são skaters, é uma verdadeira comunidade que aqui se junta”. Paulo explica-nos que nesta modalidade não há aquela rivalidade com o adversário, “porque esse adversário, por norma, costuma ser o amigo”. No skate existe quase uma luta íntima, pessoal, única. Ser melhor do que se foi antes. Ser melhor do melhor que se é.

Estarão no recinto, por estes dias, cerca de 200 atletas. “Dez a 15 por cento deles são estrangeiros, que vêm pelo prize money [prémio monetário], o que dificulta, às vezes, os atletas portugueses”. Porque a elite passa pela Liga Pro Skate, com grandes nomes a marcarem presença. “Mas felizmente temos visto atletas portugueses a chegarem à final e a vencerem” .
Matilde e Rafaela costumam “andar” com outras duas referências jovens: os irmãos Madu e Pacal. “É interessante ver uma geração mais nova a olhar para o skate com respeito”, assume Paulo Ribeiro. “Lembro que em 2017 não tínhamos o skate olímpico, não tínhamos nenhum modelo desportivo para a modalidade”. Foi a partir dos Jogos Olímpicos de Tóquio que a mudança se começou a fazer, “de forma progressiva, para cativar quem anda de skate na rua para poder praticar com outras condições”.
Porque, continua, “além de ser um desporto muito saudável, tem ainda um forte desafio psicológico na sua prática. Gostam de se superar, mais não seja com o medo de cair”.

Para Matilde, o skate tem mais poesia, “é liberdade, é vida”, que vai voltar a experimentar neste fim de semana; para Rafaela, o skake é o lugar onde “posso ser quem eu quero ser, em liberdade. Eu total”, sorri.
Essa liberdade tem hora marcada: começa nesta sexta-feira, às 16h00, e só termina no domingo, às 18h00, com a entrega de prémios. Pelo meio, há muita euforia, entrada livre, bancadas (previsivelmente) cheias e uma emissão em direto na SportTV4, no domingo à tarde, que transmite a final masculina.
Texto: José Reis
Fotos: Nuno Miguel Coelho