Dentro de água, numa piscina aquecida, afastados para darem liberdade (possível) aos movimentos, os participantes ouvem atentamente e repetem o que o instrutor lhes ensina. Com um sorriso no rosto, sem sinal de cansaço, reproduzem passo a passo cada novo exercício. Sabem ao que vêm, vêm porque sabem o que os espera. A modalidade de atividades aquáticas é apenas uma das muitas que fazem parte do programa “No Porto a Vida é Longa”, que retomou as aulas (presenciais) nesta semana. Nesta reportagem mergulhamos (quase literalmente) na primeira aula na Piscina Municipal da Constituição.
A sensação que a água dá (quente, neste caso mais quente que o habitual) leva-a a reviver memórias do antigamente, dos anos que a idade não apaga. “Nasci ao pé do rio, há 74 anos. Fui criada ao lado do rio durante muitos anos. A minha ligação com a água é algo que não consigo explicar”.
Maria da Conceição Silva – “nome curto para colocar no seu artigo, não acha?”, ri – nasceu no Porto, junto ao rio, que encontra o mar uns metros abaixo.
Pedir para descrever a ligação que ainda mantem com a água é algo para a deixar sem palavras. “Para mim é algo fora do normal, a ligação que existe é a de uma sensação inexplicável”, assume.

Conceição (chamemos-lhe assim, para tornar a menção mais curta) é uma das participantes mais antigas de “No Porto a Vida é Longa”, que retomou as atividades desportivas para maiores de 60 anos nesta semana.
O programa municipal é destinado a residentes na cidade do Porto e incentiva à prática desportiva regular, entre novembro de 2021 a 31 de dezembro de 2022 (com exceção do mês de agosto).
Várias atividades aquáticas
Encontramo-la numa aula de atividades aquáticas, na tarde da passada quarta-feira, nas Piscinas da Constituição. De fato de banho, touca na cabeça e, claro, dentro de água.
“Venho a estas aulas há 15 anos, entrei através de uma amiga, quando ainda se podia começar a participar aos 55 anos [o programa apenas permite, agora, a participação de maiores de 60 anos], e inscrevi-me na hidroginástica e na ginástica”.
Hoje, a pandemia trouxe alterações à frequência das aulas – os participantes só se podem inscrever numa modalidade – e, na hora de escolher, não há dúvidas: “atividades aquáticas”.

“E as atividades aquáticas vão muito para além da hidroginástica. Aqui fazemos atividades que vão de encontro ao que eles procuram, podendo experimentar os exercícios dentro de água, a natação ou outras atividades que consideremos importantes para eles”. Quem o assegura é Ana Sousa, uma das formadoras presentes na aula.
“O importante é trabalharmos aqui o equilíbrio, a força, o movimento, aspetos que são importantes no dia a dia destas pessoas. Os exercícios são pensados e trabalhados tendo em conta a limitação de cada um deles”, acrescenta a professora.
Para além destas atividades, os interessados em participar no programa podem inscrever-se em aulas de pilates, ioga, boccia, ginástica, cardiofitness, zumba, danças latinas e atividades ligadas ao bem-estar do corpo e mente (tai-chi).
A inscrição e/ou renovação ainda pode ser feita nas receções das Piscinas Municipais de Cartes e da Constituição.
Regressar ao convívio das aulas
A primeira aula contou com a participação de nove inscritos. Ao som da música – apropriadamente escolhida, “It´s My Life”, de Bon Jovi –, começam a seguir os exercícios propostos pelo instrutor Ricardo Silva.
“Vamos lá, perna para cima. Agora vamos movimentar as pernas como se estivéssemos a caminhar, um pé atrás do outro”.

Ouvir as “ordens” do instrutor é um sonho tornado realidade para Maria da Conceição. “Ui, nem queira saber o quanto eu estava com saudades disto”.
O programa, recorde-se, sofreu um interregno em 2020, fruto dos efeitos da pandemia de COVID-19. “Estava com tantas, com tantas saudades de vir, que era uma coisa… olhe, fora do normal”.
“Mas por muitos receios que ainda tenha [com a pandemia], e apesar de estar já vacinada, tinha que vir na mesma. Achei que tinha que arriscar. Porque o convívio, o exercício, a maneira de ser deste pessoal é fantástica”, resume a participante.
Ana Sousa corrobora a ideia e admite que “estavam todos muito ansiosos pela retoma do programa”. “Estavam sempre a visitar-nos aqui na Constituição, a perguntar quando retomavam as aulas”, acrescenta.

E no dia em que as inscrições se iniciaram foram muitos que apareceram no local. Mas, dois anos depois, como foi rever todas estas caras conhecidas?
“Estão diferentes, claro. Alguns foram mantendo algumas atividades físicas, outros estão mais velhinhos e isso nota-se, na mobilidade e na resposta menos imediata ao exercício. Mas todos mantêm a vontade de agarrar estas aulas, e isso é o mais importante”, resume Ana.
Qualidade de vida dos idosos
Ricardo Silva repete os exercícios, ao som da(s) música(s). São 45 minutos sem parar, onde os idosos são impelidos a continuar, a insistir, a não desistir.
Se não conseguem de uma forma, tentam de outra. O parapeito da piscina pode ser o melhor aliado de quem tem mobilidade reduzida, permitindo um acompanhamento da aula a outro ritmo.
Maria Lopes tem 71 anos, vive na Praceta Irene de Castro, nas Antas, apesar de “não ter nascido na cidade”. Começou a participar no programa há dois anos, por motivos de saúde, ainda antes da pandemia eclodir. Retoma novamente esta ligação.

“Por recomendação médica, decidi inscrever-me nas aulas de hidroginástica”, assume. Para aumentar a flexibilidade, “para tratar os problemas com articulações”, confessa. “E já tenho sentido melhorias”, acrescenta.
“A água tem esta possibilidade, dá-nos outra mobilidade. Eles conseguem fazer na água aquilo que não fazem no exterior, como saltar ou aplicar a força numa só perna”, admite a formadora, repetindo que, “o essencial, é sempre aumentar a tonicidade no geral e ajudar ao equilibro”.
Enrolada na toalha, logo depois da aula terminar, Maria Lopes reforça que as aulas a têm feito “sentir muito bem” e que o convívio e “rever os amigos” é a mais-valia de um projeto no qual se pretende inscrever nos próximos anos.

“Já diz o outro que ‘parar é morrer’. Este programa permite que os mais velhos possam continuar a dar qualidade à sua vida. É um espaço de socialização, possibilita que muitas destas pessoas, que vivem sozinhas, possam encontrar outras pessoas em igual situação todas as semanas”, finaliza Ana Sousa, uma das responsáveis por tornar a vida destes idosos “mais longa”.
Por hoje a aula termina. “Até para a semana”, à hora do costume. É tempo agora de arrumar o fato de banho e começar a contar as horas para a próxima sessão.