A partir deste mês, o Batalha Centro de Cinema e a Cineteca Madrid apresentam “Telúricas”, proposta que coloca em diálogo filmes, de Portugal e Espanha, que exploram a relação entre paisagem, território, memória e modos de vida profundamente ligados aos ritmos da natureza.
No Batalha, o programa estende-se ainda a uma sessão de Luas Novas, dedicada às artistas Carla Andrade e Joana Patrão, e a um projeto expositivo de Paulo Carneiro, com apresentação prevista para fevereiro.

O Batalha Centro de Cinema encerra o ciclo Seleção Nacional com “Telúricas”, capítulo que conta com a curadoria de Guilherme Blanc e Luis Parés, diretor da Cineteca Madrid e da Documenta Madrid. Entre 23 de setembro e 20 de janeiro, o programa será apresentado no Porto e terá, em fevereiro, uma versão para a Cineteca Madrid, que inclui obras de António Reis, Margarida Cordeiro e Noémia Delgado.
Partindo dos movimentos de criação fílmica que surgiram nos períodos posteriores às ditaduras em Portugal e Espanha e do cinema contemporâneo produzido depois das crises económicas de 2008, “Telúricas” reúne obras dos dois países que se abrem a modos de produção fílmica e a formas de vida que se desenvolvem em conexão com os elementos naturais.
Entre a força pulsante de vulcões, a imersão humana em rituais de colheita, as festas sacro-profanas que assinalam estações e os “regressos” a ideias de ancestralidade, tece-se um retrato peninsular de um cinema que observa a paisagem, mas que também se deixa transformar por ela.

A sessão inaugural acontece a 23 de setembro, com a estreia de uma cópia restaurada de “Casegas 1 - Procissão dos Bêbados”, de Luís Galvão Teles, apresentada em conjunto com “Los montes”, de José María Martín Sarmiento. À qual se seguirá uma conversa com o realizador Luís Galvão Teles e Arnaldo Saraiva, escritor, professor e argumentista do primeiro filme, natural de Casegas.
A 7 de outubro, “Vulcânicas” reúne três obras - de Helena Girón e Samuel Delgado, Francisca Manuel e Macu Machin - que tomam o vulcão como território e agente mitológico e primitivo, associado a uma força que contrasta com a efemeridade e a vulnerabilidade humanas.
A 21 de outubro, “50 anos de Trás-os-Montes”, fora dele assinala a influência contemporânea da prática cinematográfica de António Reis e Margarida Cordeiro através de três obras espanholas contemporâneas que exploram a relação entre comunidades rurais, animais, mitos, rituais e paisagem. A sessão será apresentada por Daniel Ribas, professor e investigador, e Raquel Morais, investigadora.
.png)
O Pão será o centro da sessão de 11 de novembro. A partir de diferentes olhares sobre esta matéria primordial e símbolo de transformação, o programa percorre relações entre trabalho agrícola, práticas religiosas e formas de vida comunitária, aproximando obras seminais do cinema português de matriz etnográfica de propostas do cinema de artista contemporâneo.

A 2 de dezembro, “Farpões Baldios”, de Marta Mateus, e “Rocío”, de Fernando Ruiz Vergara, encontram-se num diálogo entre o Alentejo e a Andaluzia. Cineasta espanhol autoexilado em Portugal na sequência do processo judicial desencadeado por “Rocío”, Fernando Ruiz Vergara viu a sua carreira cinematográfica profundamente marcada pela censura judicial do documentário, que acabou por ser a sua única obra cinematográfica concluída. Em ambos os filmes, os processos revolucionários de Portugal e Espanha são abordados a partir das relações entre religiosidade, imaginário rural e consciência política.
A 16 de dezembro, em “Telurismos Laboratoriais”, sessão realizada em colaboração programática com Rita Morais, promove-se um encontro entre laboratórios de Espanha e Portugal - Casa do Xisto, grupo do Laboratório da Cave e Cinema F.C. - em torno de práticas de produção em contacto com elementos naturais. A sessão inclui um debate e a apresentação de filmes produzidos pelos laboratórios convidados, com particular atenção às formas de organização coletiva e à vocação para os formatos analógicos.
O programa prossegue a 6 de janeiro, com “Regressos”, uma sessão composta por filmes de Meritxell Colell Aparicio, Matilde César, Ewelina Rosinska e Nuno Barroso. Perante um mundo marcado pela pressão, pelo excesso e pela violência, os filmes desta sessão encontram no regresso à origem uma possibilidade de resistência, reencontro e ressignificação.
No Batalha, o ciclo termina a 20 de janeiro, às 21h15, com um filme-concerto com filmes do artista José Val del Omar, com acompanhamento musical de Diego el Gavi, músico conhecido pela sua ligação ao canto cigano, ao flamenco e ao jazz latino. A entrada é gratuita, mediante levantamento de bilhete no próprio dia, estando limitada a dois bilhetes por pessoa.
Um diálogo com Luas Novas
O foco em histórias e experiências telúricas estende-se também a Luas Novas, o programa do Batalha dedicado à prática fílmica de novos nomes do cinema nacional. A 10 de outubro, a sessão reúne trabalhos de Carla Andrade (ES) e Joana Patrão (PT), cujas práticas exploram a paisagem, a natureza, a matéria e as relações entre corpo e tempo. A seleção propõe um encontro entre duas abordagens que partilham uma sensibilidade e uma materialidade telúricas. A sessão será seguida de uma conversa com as artistas, moderada por Teresa Castro, professora e investigadora.
Do cinema ao espaço expositivo
Em fevereiro, “Telúricas” prolonga-se para além da sala de cinema com um projeto expositivo de Paulo Carneiro, que dá continuidade à sua exploração cinematográfica do território de Covas do Barroso e à relação que tem vindo a construir com a comunidade local. Partindo da vida da comunidade e do seu património de histórias, lendas, mitos e memórias, o projeto aprofunda uma relação continuada com o território e com as suas formas de transmissão, imaginação e linguagem musical.