De 25 de fevereiro a 29 de março, o Batalha Centro de Cinema apresenta uma retrospetiva dedicada a Kamal Aljafari, realizador palestiniano e nome fundamental do cinema contemporâneo.
Nascido em Ramla, Aljafari desenvolveu uma linguagem singular que expande os limites do cinema documental e ensaístico, transformando imagens de arquivo em ferramentas políticas e estéticas. No centro da sua prática está a construção de um “contra arquivo” — que o próprio define como “a câmara dos despossados” —, onde histórias e presenças sistematicamente silenciadas pela ideologia sionista são reinscritas e devolvidas ao mundo, afirmando a resistência da memória face ao apagamento.
Com curadoria de Rita Morais, artista-cineasta e curadora, o ciclo inclui a presença do realizador no Porto para uma masterclasse sobre a sua prática artística e a exibição de uma seleção abrangente da obra de Aljafari, incluindo a estreia na cidade do mais recente filme, “With Hasan in Gaza”, apresentado a 25 de fevereiro (com repetição a 25 de março).
O filme parte de um episódio autobiográfico: em 1989, durante a Primeira Intifada, Aljafari foi preso pela ocupação israelita e conheceu Abdel Rahim, de Gaza. Doze anos depois, viajou até ao território com apenas um nome, uma fotografia, um guia local — Hasan — e uma câmara Mini DV, na tentativa de reencontrar o antigo companheiro de prisão.

As cassetes resultantes dessa busca, esquecidas durante mais de duas décadas, revelam hoje um retrato comovente de um território e de um povo marcados pela perda. Nas palavras do realizador, trata-se de “um filme sobre a catástrofe e a poesia que resiste”.
A 14 de março é exibido “A Fidai Film”, onde Aljafari recupera imagens saqueadas do Centro de Investigação Palestiniano, em Beirute, cujo arquivo foi apreendido pelo exército israelita durante a intervenção militar no Líbano, em 1982.
Reapropriando-se desse material, hoje na posse das autoridades israelitas, o cineasta confronta décadas de tentativas de apagamento histórico, transformando o gesto artístico num ato de restituição simbólica.

A 20 de março, “It's a Long Way from Amphioxus” observa, com humor subtil e quase sem diálogos, uma sala de espera de imigração em Berlim, onde vidas são reduzidas a números e histórias pessoais convertidas em dados estatísticos, até que um breve momento de humanidade rompe a lógica burocrática.
Na mesma sessão, é apresentado “An Unusual Summer”, construído a partir das imagens captadas por uma câmara instalada pelo pai do realizador em frente à casa da família, em Ramla, depois de um episódio de vandalismo.
Após a morte do pai, Aljafari transforma esses registos num retrato sensível da vida quotidiana num bairro apelidado de “gueto”, revelando a beleza fugaz dos gestos mais simples.

A 26 de março, são apresentados “UNDR” e “Recollection”: no primeiro, imagens aéreas e de arquivo expõem o paradoxo entre a tentativa de representar uma Palestina desocupada e os sinais persistentes de vida; no segundo, o realizador intervém sobre excertos de produções israelitas e norte-americanas filmadas em Jafa entre 1960 e 1990, apagando os protagonistas para devolver centralidade às ruas, às casas e às presenças ausentes.
O ciclo encerra a 29 de março com “Balconies” e “The Roof”. Inspirado em versos de Federico García Lorca, “Balconies” observa varandas inacabadas em Ramla como metáfora da precariedade e da negação contínua da presença palestiniana.
Já “The Roof” acompanha o realizador numa viagem entre a Alemanha, onde vive, e Ramla e Jafa, entrelaçando memórias familiares de 1948 com o presente filmado, numa reflexão íntima sobre identidade, herança e ausência.