Programa vai ensinar jovens a dançar breaking e levá-los a atuar num palco da cidade
09-09-2020
O projeto municipal Desporto no Bairro vai levar a nova modalidade olímpica a oito zonas da cidade.

A Câmara do Porto, através da empresa municipal Ágora -- Cultura e Desporto do Porto, vai desenvolver em oito bairros da cidade um novo programa para dar a conhecer o breaking -- modalidade que se estreia no programa olímpico em 2024. A iniciativa, chamada Desporto no Bairro, será dinamizada no terreno por alguns dos campeões mundiais que integram o grupo portuense Momentum Crew. Os resultados serão apresentados em palco no próximo mês dezembro.


Depois de ver o seu arranque adiado alguns meses, devido ao contexto pandémico, o projeto foi oficialmente lançado nesta quarta-feira, 10 de setembro, com uma apresentação realizada no Parque da Pasteleira em que esteve presente Rui Moreira e vários vereadores do município.
"Retomar a atividade neste novo contexto tem sido um processo complexo e desafiante para todas as nossas equipas. Mas é um esforço que tem valido a pena, como se provou, por exemplo, com a realização dos nossos campos de férias municipais, onde participaram mais de 700 crianças -- entre seis e os 15 anos -- ao longo de oito semanas, e que constituiu um enorme sucesso. É este bom exemplo que pretendemos replicar neste novo projeto, cujo modelo partilha algumas das características daquele que foi, para mim, um dos mais virtuosos programas que desenvolvemos no âmbito do Cultura em Expansão -- o OUPA!", assinalou o autarca.

Destacando o cenário escolhido para a apresentação do Desporto no Bairro, um "espaço fantástico da nossa cidade", Rui Moreira notou que foi na Pasteleira que se realizou a última residência do OUPA!. "E é precisamente aqui à Pasteleira que voltamos, para reforçar este nosso compromisso de fazer cidade com toda a cidade, ainda que, agora, com uma nova fórmula de atuação, através do desporto e inspirados por esta dança tão contagiante e energética que é o breaking -- cuja génese está nos próprios bairros", acrescentou.

"Estamos empenhados na reabilitação física dos blocos habitacionais, e também dos seus parques e jardins, com a realização de mais projetos de intervenção social e mais ações e eventos no espaço público do bairro. No fundo, trazendo nova vida -- novas vivências -- aos bairros da cidade", assinalou ainda o presidente da Câmara do Porto, vincando que "tal como a música, o teatro, o cinema, a arte urbana ou até mesmo o skate -- basta atentar no sucesso do projeto que temos a funcionar no Parque Desportivo de Ramalde --, também o breaking pode e deve servir como uma poderosa ferramenta de inclusão, educação e realização pessoal".

Para Rui Moreira, "a cultura, como o desporto, são duas áreas cruciais para potenciarmos o talento e a criatividade dos nossos jovens, reforçando a sua autoestima e, ao mesmo tempo, o seu sentimento de pertença ao bairro. Seja aqui na Pasteleira, seja em Pinheiro Torres, nas Campinas, no Viso, no Cerco ou no Lagarteiro, os nossos bairros já mostraram que são um terreno fértil para a criação, que é possível tornar cada bairro mais orgulhoso de si e dos seus".
Referindo-se à entrada do breaking no programa olímpico em 2024, o autarca frisou que "a grande ambição não é obter medalhas, é que todos participem. Isso é o desporto de competição, tal como eu pratiquei durante alguns anos". Por isso, deixou uma garantia: "Podemos, é certo, não conseguir chegar a todos. Mas vamos, seguramente, chegar a mais alguns, ajudando a transformar a sua vida".




PROGRAMA CHEGA A OITO BAIRROS

O projeto dinamizado pela Ágora visa a promoção do desporto enquanto fator de inclusão e pretende atrair para a modalidade do breaking jovens de oito bairros da cidade: Aldoar, Fonte da Moura, Viso, Ramalde, Pasteleira, Pinheiro Torres, Lagarteiro e Cerco.

O programa será coordenado no terreno por Max Oliveira, diretor do MXM ArtCenter e fundador dos Momentum Crew, o primeiro grupo profissional de dança urbana em Portugal e que integra os b-boys, já com vários títulos mundiais no seu currículo.

"O breaking e a cultura urbana ajudaram-me quando atravessei dificuldades. Deu-me oportunidade de atuar no Teatro Nacional São João, estar neste local, ir aos quatro cantos do globo representar Portugal. Colocámos o país no mapa mundial do breaking", assinalou Max Oliveira, agradecendo à Câmara do Porto a recetividade para o programa "Desporto no Bairro".

O objetivo, segundo o coreógrafo, é "levar o breaking a comunidades desfavorecidas e entrar no bairro de forma orgânica. Não somos professores, aparecemos para uma jam session e convidamos quem quiser a vir divertir-se connosco". Max Oliveira notou ainda que os contextos diferentes de que são oriundos os elementos da sua equipa ajudarão no terreno: "Temos pessoas que passaram pela prisão, que passaram dificuldades. E que triunfaram no breaking nacional e internacional. Isso deixa-me muito orgulhoso. Através do trabalho árduo, que nos afasta de tudo o que é negativo, desviamo-nos de caminhos que não são benéficos à sociedade".

"É uma modalidade extremamente física, que transmite uma série de caraterísticas positivas: coordenação motora, flexibilidade, força. Isso é muito bom, porque hoje em dia os jovens ficam muito agarrados à tecnologia. O breaking traz-lhes aquilo que no meu tempo era jogar à bola e comer pão com manteiga, traz-lhes isto de brincar no chão", disse ainda Max Oliveira.

O coreógrafo não escondeu o orgulho por desenvolver este projeto naquela que é a sua cidade: "Para mim significa mais fazer este projeto na cidade do Porto do que fazer um projeto grande nos Estados Unidos, como fizemos no ano passado em Nova Iorque. Eu visto a camisola Porto, eu sou Porto, e poder fazer um projeto desta dimensão na cidade do Porto é uma das etapas mais importantes da minha vida".


INSPIRAR OS JOVENS

Divididos por cinco equipas, os b-boys constituirão o grupo de formadores que, durante os próximos meses, vai dinamizar este programa em contexto de bairro, em articulação com as várias associações locais, procurando inspirar novos praticantes com as suas próprias histórias de vida. Muitos deles cresceram nestes bairros, despertando aí a sua paixão pelo breaking, e hoje são profissionais respeitados na área, considerados dos melhores do mundo neste estilo de dança urbana.

O apelo da modalidade junto dos mais jovens foi visível desde logo no Parque da Pasteleira, com algumas dezenas de crianças, de grupos que andavam pelo parque, a juntarem-se de forma espontânea para assistir à demonstração feita pela Momentum Crew fez e até a replicar alguns dos movimentos.

"Este é um projeto muito importante para nós, no qual temos vindo a trabalhar. Hoje é um dia muito feliz por estarmos a apresentá-lo. Queremos, através do desporto, desenvolver e trabalhar competências pessoais, sociais e mesmo profissionais. Trabalhar com estes jovens, inspirá-los, e através de uma modalidade desportiva, trabalhar regras, comprometimentos, atitudes, valores que fazem parte da sua formação enquanto indivíduo", realçou a vereadora da Juventude e Desporto, Catarina Araújo, também presidente do conselho de administração da Ágora.

"Por força das circunstâncias de saúde pública, o objetivo é envolver cerca de 200 jovens nesta primeira fase, subdivididos em vários grupos, para que possamos cumprir com as indicações sanitárias. Mas a meta é desenvolver o trabalho, continuar o programa e, progressivamente, alargá-lo e cada vez sermos mais e levarmos este desafio a muitos dos jovens da nossa cidade", acrescentou a vereadora.

O plano de atividades vai decorrer até dezembro e inclui, para além da formação e dos treinos (bissemanais) nos próprios bairros, a participação em vários workshops, eventos de dança e pequenas exibições na cidade.

O projeto culminará, depois, com a apresentação de um espetáculo final, em data e local ainda anunciar, que juntará em palco o grupo internacional ILL Abilities (constituído exclusivamente por bailarinos com mobilidade reduzida), os Momentum Crew e os jovens finalistas nesta primeira edição do programa "Desporto no Bairro". Os ensaios para este espetáculo decorrerão a partir de novembro na MXM ArtCenter, juntando todos os formadores.

O investimento global no programa ronda os 66 mil euros.